O Socorro | Antes de apoiar Ciro, Lula e o PT deveriam ler um curtíssimo conto do Millôr! Saiba por que e compartilhe...

03/05/2018 12:26

DA REDAÇÃO | Na curtíssima fábula O Socorro (leia ao final da matéria), o escritor Millôr Fernandes (1923-2012) conta a história de um coveiro que cavou tanto uma cova que acabou sem poder sair de dentro dela. Desesperado, começou a pedir por socorro, em vão. Anoiteceu. Chegou a madrugada. Nada de ajuda.

De repente, eis que o coveiro ouve os passos de alguém que passava pelo local. Era um bêbado. O coveiro se animou e começou a gritar por socorro novamente. "Estou com um frio terrível", gritou. 

O bêbado ouviu e se aproximou. Olhou então para baixo e, com a consciência alterada por conta da bebida, concluiu: tiraram a terra do pobre mortinho. Pegou então uma pá e, solidária e cuidadosamente, enterrou de verdade o coveiro.

  • Moral da história, segundo o próprio Millôr: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem se pede ajuda. (Continua, após o anúncio).

Pois bem. Segundo noticiado pela "grande mídia" nacional, há nos bastidores uma negociação para que o PT, caso Lula não possa ser candidato, seja vice de Ciro Gomes (PDT). Articulação estaria sendo feita pelos petistas Jaques Wagner e Fernando Haddad. 

A justificativa maior é a de que o pedetista é a chave para se derrotar nas urnas os golpistas e, por isso e por estar na vice-presidência, o PT poderia se recompor politicamente a curto ou a médio prazo. Ciro, assim, seria uma espécie confiável de "socorro" para os petistas.

Tal ideia, se levada a cabo, pode dar ao PT e sobretudo a Lula o mesmo fim que teve o coveiro do conto do Millôr.  (Continua, após o anúncio).

Ciro, ao menos na atual conjuntura, já demonstrou que não é digno da menor confiança. Prova disso é que, dentre outras declarações de mesmo tom, Ciro afirmou que Lula não é um preso político e declarou também recentemente ao Estadão que é a favor de prisão em segundo instância. Ou seja, até para médio entendedor, na prática Ciro quer Lula mesmo é na cadeia, isto porque, só assim, Ciro pode sonhar em ser presidente. 

Por que razões concluir então que Ciro, acaso fosse eleito, ajudaria Lula a sair do cárcere e o PT a se recompor politicamente apenas por causa do apoio dos petistas nas eleições? Ciro ajudaria o PT a voltar futuramente à presidência, então? Quimera. Basta lembrar do que foi capaz o Temer, um simples vice. 

O Partido dos Trabalhadores passa por um momento grave. Perdeu a presidência da república para um golpe de Estado, e seu líder maior está preso, em razão desse mesmo processo. Deve, portanto, ser muito cauteloso em relação a quem vai se aliar. (Continua, após o anúncio).

Ciro é uma espécie consciente de bêbado do conto do Millôr, isto é, ao contrário do ébrio da história, sabe muito bem o que faz. Por isso os petistas não devem se iludir: Ciro pode ser a pá de cal em Lula e no PT. Todo cuidado é pouco com a ajuda que esse moço pode dar.


Leia o conto do Millôr:

O Socorro

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de repente, na distracção do ofício que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia mais um som humano, embora o cemitério estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: «O que é que há?»
O coveiro então gritou, desesperado: «Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!». «Mas coitado!» - condoeu-se o bêbado. - «Tem toda razão de estar com frio.
Alguém tirou a terra toda de cima de você, meu pobre mortinho!». E, pegando na pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.
Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem se apela 

Millôr Fernandes, in 'Pif-Paf'  

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