O pessimismo que toma conta do professor só é bom para o governo

05/09/2026

Encarar a realidade com otimismo não é ser ingênuo, é ser estratégico. É acreditar que é possível olhar para o próprio contracheque e dizer: essa 'porra' pode aumentar, com luta pode aumentar

*Fábio Mendes, às 13:03

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Piso do Magistério / Sou professor há alguns anos e, de uns tempos para cá, tenho visto um clima pesado tomar conta dos meus colegas. É salário ruim, violência de alunos, cobrança absurda de governo, coordenação, família, todo mundo apontando o dedo. O resultado é um pessimismo generalizado nas escolas, redes sociais, aquela sensação de que nada presta, nada melhora e que os docentes estão eternamente condenados ao caos. Dá para entender o desânimo, mas esse buraco emocional em que muitos colegas caíram não ajuda em absolutamente nada.


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Na prática, esse pessimismo todo acaba sendo um presentão para quem está por trás da bagunça, principalmente os governos. Quanto mais o professor se sente derrotado, mais fácil é empurrar reforma malfeita, cortar verba, sucatear estrutura, negar piso salarial e ainda jogar a culpa em quem está na linha de frente. O discurso do "não tem jeito" vira desculpa perfeita para manter tudo como está. Quando o professor desiste por dentro, o sistema respira aliviado. Ora, se o docente não acredita que as coisas podem melhorar para ele, que motivos os governos teriam para acreditar.

Não se trata de fingir que está tudo bem. Os salários são vergonhosos, a violência é real, a pressão por resultado é desumana. Mas transformar cada problema em motivo para repetir "que nada vai mudar" só alimenta a sensação de impotência. Fica um chororô coletivo que não altera a realidade, só drena a pouca energia que ainda resta. Reclamar pode até aliviar na hora, mas não constrói saída, não organiza luta, não inspira ninguém a fazer diferente.

Encarar a realidade com otimismo não é ser ingênuo, é ser estratégico. Otimismo, nesse contexto, é acreditar que há espaço para agir, para se organizar, para cobrar com inteligência, para criar brechas de qualidade dentro do caos. É olhar para a sala de aula e enxergar que, mesmo com tudo contra, ainda existe aprendizado, vínculo, transformação. É olhar para o próprio contracheque e dizer: essa 'porra' pode aumentar, com luta pode aumentar. Esse tipo de olhar incomoda muito mais quem governa do que um bando de profissionais derrotados, cansados e silenciosos.

Problemas, portanto, não se resolve com cabeça baixa, se resolve com lucidez e ação. É preciso reconhecer o que está errado, sim, mas sem se deixar engolir por esse discurso de fim de mundo que só paralisa. Quando o professor escolhe manter uma postura crítica e otimista, ele deixa claro que não vai aceitar migalha, nem se acostumar com o pouco. E é justamente essa combinação de consciência e esperança que mais assusta quem lucra com a crise permanente da educação e seus profissionais. Em síntese: o pessimismo do professor só é bom para o governo.

*Fábio Mendes é professor de Química e segue o Dever de Classe

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