Encarar a realidade com otimismo não é ser ingênuo, é ser estratégico. É acreditar que é possível olhar para o próprio contracheque e dizer: essa 'porra' pode aumentar, com luta pode aumentar
O pessimismo que toma conta do professor só é bom para o governo
Encarar a realidade com otimismo não é ser ingênuo, é ser estratégico. É acreditar que é possível olhar para o próprio contracheque e dizer: essa 'porra' pode aumentar, com luta pode aumentar

*Fábio Mendes, às 13:03
Piso do Magistério / Sou professor há alguns anos e, de uns tempos para cá, tenho visto um clima pesado tomar conta dos meus colegas. É salário ruim, violência de alunos, cobrança absurda de governo, coordenação, família, todo mundo apontando o dedo. O resultado é um pessimismo generalizado nas escolas, redes sociais, aquela sensação de que nada presta, nada melhora e que os docentes estão eternamente condenados ao caos. Dá para entender o desânimo, mas esse buraco emocional em que muitos colegas caíram não ajuda em absolutamente nada.
Na prática, esse pessimismo todo acaba sendo um presentão para quem está por trás da bagunça, principalmente os governos. Quanto mais o professor se sente derrotado, mais fácil é empurrar reforma malfeita, cortar verba, sucatear estrutura, negar piso salarial e ainda jogar a culpa em quem está na linha de frente. O discurso do "não tem jeito" vira desculpa perfeita para manter tudo como está. Quando o professor desiste por dentro, o sistema respira aliviado. Ora, se o docente não acredita que as coisas podem melhorar para ele, que motivos os governos teriam para acreditar.
Não se trata de fingir que está tudo bem. Os salários são vergonhosos, a violência é real, a pressão por resultado é desumana. Mas transformar cada problema em motivo para repetir "que nada vai mudar" só alimenta a sensação de impotência. Fica um chororô coletivo que não altera a realidade, só drena a pouca energia que ainda resta. Reclamar pode até aliviar na hora, mas não constrói saída, não organiza luta, não inspira ninguém a fazer diferente.
Encarar a realidade com otimismo não é ser ingênuo, é ser estratégico. Otimismo, nesse contexto, é acreditar que há espaço para agir, para se organizar, para cobrar com inteligência, para criar brechas de qualidade dentro do caos. É olhar para a sala de aula e enxergar que, mesmo com tudo contra, ainda existe aprendizado, vínculo, transformação. É olhar para o próprio contracheque e dizer: essa 'porra' pode aumentar, com luta pode aumentar. Esse tipo de olhar incomoda muito mais quem governa do que um bando de profissionais derrotados, cansados e silenciosos.
Problemas, portanto, não se resolve com cabeça baixa, se resolve com lucidez e ação. É preciso reconhecer o que está errado, sim, mas sem se deixar engolir por esse discurso de fim de mundo que só paralisa. Quando o professor escolhe manter uma postura crítica e otimista, ele deixa claro que não vai aceitar migalha, nem se acostumar com o pouco. E é justamente essa combinação de consciência e esperança que mais assusta quem lucra com a crise permanente da educação e seus profissionais. Em síntese: o pessimismo do professor só é bom para o governo.
*Fábio Mendes é professor de Química e segue o Dever de Classe
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