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O servidor público que vota na direita é o tipo de 'herói' que cava a própria cova
No fundo, o servidor público liberal é o funcionário do navio que aplaude o capitão enquanto ele abre buracos no casco, em nome da "modernização da frota"

*Jéssica P Cruz, às 05:51
O servidor público liberal — que vota em Flávio Bolsonaro (PL) e parlamentares de direita — é uma figura "encantadora". Trabalha em órgão estatal, recebe salário do Estado, tem estabilidade garantida por lei e, nas horas vagas, milita com fervor religioso pela destruição de tudo isso. É um caso raro de trabalhador que sonha, com brilho nos olhos, em ver o próprio emprego terceirizado, precarizado ou simplesmente extinto em nome da “eficiência do mercado”.
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O concurseiro liberal é ainda mais curioso. Estuda anos para entrar no serviço público, repete mantras sobre meritocracia e esforço individual, e ao mesmo tempo apoia candidatos direitista — como Flávio Bolsonaro & gangue — que defendem o fim dos concursos, o congelamento de salários e a substituição de servidores por contratos temporários e aplicativos. É como treinar para uma maratona torcendo para que o percurso seja demolido antes da largada.
Esses defensores da privatização total acreditam que o Estado é sempre ineficiente, exceto, claro, quando deposita o salário deles mesmos todo mês. Aí, milagrosamente, o dinheiro público deixa de ser "roubo" e vira "merecimento". A estabilidade, tão demonizada nos discursos, torna-se apenas um detalhe incômodo que precisa ser disfarçado com frases de efeito sobre "empreendedorismo de si mesmo".
Ao votar em partidos e candidatos que prometem enxugar o Estado até ele caber em um tweet, o servidor liberal demonstra uma coerência admirável: deseja um futuro em que hospitais, escolas, universidades, agências reguladoras e serviços essenciais sejam entregues a grupos privados, enquanto ele próprio descobre, tarde demais, que estabilidade não é privilégio, mas proteção mínima contra o desmonte.
No fundo, o servidor público liberal é o funcionário do navio que aplaude o capitão enquanto ele abre buracos no casco, em nome da "modernização da frota". Acredita que sabe nadar melhor que os outros e que, quando a água entrar, o mercado virá em forma de bote salva-vidas premium. Quando perceber que o ingresso para o bote também foi privatizado, talvez descubra que defender o serviço público não era corporativismo, mas simples instinto de sobrevivência.
*Jéssica Cruz é servidora pública federal e segue o Dever de Classe
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