O recuo do extremismo nas urnas americanas é real, mas a ilusão acaba quando se analisa a geopolítica de rapina que une Democratas e Republicanos nos Estados Unidos
EUA: O freio na extrema-direita e o mito da alternância imperial em Washington
O recuo do extremismo nas urnas americanas é real, mas a ilusão acaba quando se analisa a geopolítica de rapina que une Democratas e Republicanos nos Estados Unidos

> Política & Economia | A apuração das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos confirmou uma expressiva vitória do Partido Democrata, que retoma o controle de parcelas cruciais do Congresso e impõe um freio institucional inequívoco à agenda republicana e extremista de direita liderada por Donald Trump.
Resultado até o fechamento deste artigo:
Câmara dos Representantes: 367 dos 435 assentos foram projetados até o momento. O Partido Democrata conquistou 228 assentos e lidera em 35, enquanto o Partido Republicano conquistou 139 assentos e lidera em 33.
Senado: O Partido Democrata obteve 20 vitórias e lidera em 2 disputas, enquanto o Partido Republicano confirmou 13 assentos.
Num primeiro olhar, a derrota eleitoral das hostes conservadoras merece ser saudada por democratas e humanistas ao redor do Globo. Trata-se de uma barreira imposta à ascensão de um modelo reacionário, personalista e agressivo que não apenas desgasta as instituições norte-americanas, mas alimenta movimentos análogos internacionalmente — da retórica de choque de Javier Milei, na Argentina, às diversas variantes da extrema-direita global.
A contenção do extremismo estridente é um alívio tático imediato. Contudo, qualquer celebração desprovida de rigor analítico incorre em perigosa miopia histórica: trocar o elefante republicano pelo burro democrata altera a estética e a liturgia do poder em Washington, mas preserva intacta a sua vocação imperialista de tutela sobre o restante do planeta.
Para além da polarização doméstica nos Estados Unidos, a política externa de ambos os partidos compartilha da mesma premissa fundacional: a crença dogmática no "excepcionalismo americano". Tanto democratas quanto republicanos operam sob a lógica tácita de que a superpotência detém uma procuração universal para arbitrar fronteiras, intervir em regimes políticos e subordinar soberanias de outros paísses à segurança de seus interesses econômicos e geoestratégicos — sobretudo quando recursos naturais cruciais e rotas de comércio estão em disputa.
A história recente demonstra que a agressão a outros povos independe da cor partidária na Casa Branca ou no Capitólio.
Os republicanos costumam fazê-lo de forma unilateral, ostensiva e doutrinária:
Guerra do Vietnã e Camboja (Administração Richard Nixon): bombardeios clandestinos devastadores sobre o Sudeste Asiático e apoio ostensivo a golpes sangrentos na América Latina, como a derrubada de Salvador Allende no Chile em 1973.
Invasão de Granada e ofensivas na América Central (Administração Ronald Reagan): financiamento paramilitar na Nicarágua (escândalo Irã-Contras) e pressões econômico-militares contínuas sobre governos progressistas da região.
Guerra do Golfo e Invasão do Iraque (Administrações George H. W. Bush e George W. Bush): o massacre da Guerra do Golfo em 1991 e, em 2003, a invasão e ocupação do Iraque baseadas na farsa das armas de destruição em massa, desestabilizando todo o Oriente Médio em nome do controle energético e da supremacia militar.
Invasão da Venezuela e sequestro do presidente Nicolás Maduro em 2026, governo de Donald Trump.
Os democratas, por sua vez, frequentemente revestem a mesma pulsão intervencionista sob o verniz retórico dos direitos humanos, da governança multilateral e das "intervenções humanitárias":
Escalada no Vietnã e Baía dos Porcos (Administrações John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson): tentativas de invasão a Cuba, sabotagem econômica constante e a inserção militar massiva de centenas de milhares de tropas no Vietnã, destruindo gerações com o uso de armas químicas como o agente laranja.
Bombardeios na Iugoslávia (Administração Bill Clinton): ataques aéreos da OTAN em 1999 à revelia de autorização expressa do Conselho de Segurança da ONU, fragmentando a região e consolidando a expansão militar ocidental no Leste Europeu.
Guerra na Líbia e a Doutrina dos Drones (Administração Barack Obama): a destruição do Estado líbio em 2011 sob pretexto humanitário, mergulhando o país africano no caos civil e abrindo caminho para a pilhagem de suas riquezas; além da expansão da guerra de drones em países como Paquistão, Iêmen e Somália.
A derrota eleitoral imposta a Trump e aos ecos de seu extremismo é um revés merecido à extrema-direita global. No entanto, o Sul Global e todo o mundo não devem cultivar ilusões: a alternância em Washington é a troca de operadores de uma mesma engrenagem imperial. Enquanto a estrutura de dominação econômica e ingerência militar persistir como razão de Estado nos Estados Unidos, a soberania e as riquezas dos povos continuarão na mira — seja por meio do porrete explícito da direita republicana, seja pelas sanções "cirúrgicas" e "guerras humanitárias" dos liberais democratas.
*Robinson Teles é Geógrafo e segue o Dever de Classe
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