As urnas já falaram: querer governar com o programa derrotado de Flávio Bolsonaro é trair a maioria do povo; presidente reeleito sabe disso
Lula deve ler com atenção o 'Manifesto dos Economistas'
As urnas já falaram: querer governar com o programa derrotado de Flávio Bolsonaro é trair a maioria do povo; presidente reeleito sabe disso

> Política & Economia | A poeira mal baixou sobre as urnas e os velhos donos do poder financeiro já tentam convocar o seu habitual "terceiro turno" das eleições. Exigem que o quarto mandato de Lula (PT) comece ajoelhado perante a cartilha do corte de gastos, repetindo a ladainha de que governar exige sempre sangrar o lombo do povo.
O conselho que qualquer brasileiro comprometido com a soberania popular deve dar ao presidente reeleito neste momento resume-se a uma advertência cristalina: não ceda ao estelionato eleitoral. Lula precisa ouvir o alerta que ecoa do recente Manifesto de Economistas, cujo título sintetiza com precisão o que está em jogo: "As urnas decidiram. Não ao terceiro turno do mercado, em apoio a uma nova regra fiscal".
O diagnóstico desse documento é cirúrgico ao apontar que ceder à pressão da Faria Lima significaria uma verdadeira traição aos milhões de brasileiros que garantiram a vitória de Lula. O projeto que o eleitorado rejeitou expressamente nas urnas previa o desmonte acelerado do Estado, a asfixia do investimento público e uma brutal contenção orçamentária. Adotar essa mesma agenda por pressão especulativa seria consagrar a vitória do derrotado Flávio Bolsonaro (PL) pela porta dos fundos.
O arrocho que os mercados e seus porta-vozes (inclusive na mídia 'progressista' como Brasil 247), chamam de "responsabilidade fiscal" — tem endereço e vítimas certas. Quando a ortodoxia financeira fala em podar despesas primárias, está mirando na desvinculação das aposentadorias, no travamento da política de valorização real do salário mínimo, na corrosão dos pisos constitucionais da saúde e da educação e na redução dos repasses a programas sociais vitais.
O manifesto dos economistas acerta ao desmontar a falácia de que estabilidade se constrói sacrificando quem produz e consome. Em vez de cortar o prato de comida e o remédio da população, o caminho apontado pelo bom senso econômico passa pela revisão de centenas de bilhões de reais em incentivos e isenções que contemplam os mais ricos, pela taxação de super-rendas e pela instituição de uma nova regra fiscal que blinde os investimentos estruturantes e os direitos sociais da sanha rentista.
O Brasil já assistiu a esse filme em momentos históricos anteriores recentes e pagou um preço caríssimo em desemprego, desilusão social e paralisia política. Basta lembrar o golpe contra a Presidenta Dilma. O mandato conferido a Lula pelo voto não foi um cheque em branco para a conciliação subserviente com a especulação financeira, mas sim uma ordem explícita de reconstrução, cuidado com os mais vulneráveis e retomada do desenvolvimento nacional.
A democracia não termina na contagem dos votos. Se o governo ceder à histeria fabricada pelo mercado e abraçar o receituário do adversário que venceu nas urnas, esvaziará o sentido da própria escolha popular. O único compromisso inegociável de Lula deve ser com o povo que o elegeu.
*Sandro Cortês é trabalhador autônomo e segue o Dever de Classe
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