Em um sistema eleitoral de duas etapas, a vitória antecipada de Lula não é apenas uma demonstração de força, mas uma decisão para evitar o desgaste, a violência política e a imprevisibilidade de uma segunda rodada de votação
Partidos de esquerda deveriam votar em Lula já no primeiro turno
Em um sistema eleitoral de duas etapas, a vitória antecipada de Lula não é apenas uma demonstração de força, mas uma decisão para evitar o desgaste, a violência política e a imprevisibilidade de uma segunda rodada de votação

*Júlio R Sales, às 17:15
Na política, a linha que separa o idealismo da ingenuidade costuma ser dolorosamente tênue. A cada ciclo eleitoral, somos confrontados com o mesmo dilema moral: votar com o coração no candidato que reflete 100% de nossas convicções ou votar com a razão naquele que, mais próximo ao nosso campo ideológico, tem chances reais de vitória? Em tempos de polarização aguda, a resposta exige maturidade. É hora de falarmos sem rodeios sobre a urgência do voto útil já no primeiro turno em Lula (PT).
E aí vai uma espécie de 'provocação' para PSTU, PCO, UP, PCB ou mesmo partidos e candidatos liberais não alinhados com a extrema direita de Flávio Bolsonaro (PL), como Democrata, DC e o Avante do Augusto Cury.
Existe uma fantasia perigosa cultivada por partidos menores (no sentido quantitativo) de que marcar posição é mais nobre do que garantir a vitória. Sob a bandeira da "pureza ideológica", legendas que dividem o mesmo espectro político insistem em lançar e manter candidaturas que às vezes não chegam a um dígito nas pesquisas. O discurso é sedutor, mas a matemática eleitoral é implacável: ao fragmentar os votos de um mesmo campo de ideias, essas legendas não estão construindo uma alternativa para o futuro; estão, na prática, sabotando o presente.
Precisamos encarar a realidade dos números. Em um sistema de dois turnos, a vitória antecipada de Lula não é apenas uma demonstração de força, mas uma necessidade de sobrevivência para evitar o desgaste, a violência política e a imprevisibilidade de um segundo turno. Quando o candidato majoritário do nosso campo ideológico —Lula — está a poucos pontos de liquidar a fatura, os 2%, 3% ou 5% de votos pulverizados em candidaturas menores e inviáveis eleitoralmente tornam-se o fiel da balança.
O argumento central aqui é inescapável: manter candidaturas menores sem chance de vitória é trabalhar, direta e gratuitamente, para o partido inimigo, ou seja, para a extrema direita.
Toda vez que um eleitor escolhe o candidato de 1% ou menos disso para "limpar a consciência", ele retira um voto crucial daquele que realmente pode derrotar o projeto antagônico. A recusa dos partidos menores em abandonar suas candidaturas em prol da frente mais forte não é um ato de heroísmo; é um ato de profunda vaidade política. É o equivalente a afundar o próprio navio apenas para ser o capitão do bote salva-vidas.
O adversário comemora cada candidatura menor lançada pelo nosso lado. O inimigo não teme o candidato puro que faz discursos bonitos e perde; ele teme a união pragmática que o derrota nas urnas. Ao não cederem, os líderes desses partidos menores atuam como os maiores cabos eleitorais da oposição, fragmentando a resistência e dando fôlego a um inimigo que poderia ser abatido logo na primeira etapa da corrida.
O voto útil não é um abandono de princípios, mas sim o exercício máximo da inteligência política. É compreender que, em uma guerra de trincheiras, não se divide o exército na hora da batalha final.
Aos partidos menores e a seus eleitores, o recado que a história deixa é claro: a pureza ideológica que resulta na vitória do inimigo é apenas uma derrota disfarçada de virtude. Abandonar candidaturas inviáveis e aglutinar forças no candidato com reais chances de vencer no primeiro turno não é abrir mão dos próprios valores. É garantir que, no dia seguinte à eleição, esses valores tenham a chance de governar, em vez de amargar quatro anos de retrocesso na oposição.
Se o objetivo-alvo de quem é de esquerda nestas eleições de 2026 é derrotar o inimigo maior, Flávio Bolsonaro, que tenhamos a grandeza de dar as mãos agora em torno da candidatura de Lula. O primeiro turno é o momento de decidir se queremos ser os heróis das nossas próprias derrotas ou os arquitetos de uma vitória real contra a extrema direita.
*Júlio Sales é historiador e segue o Dever de Classe
Envie também seu artigo para: pontodevista@deverdeclasse.org
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