Calvário na sala de aula: a perversidade da nova reforma da previdência

07/09/2026

Agentes do mercado financeiro autores da nova proposta dizem que se inspiraram no modelo sueco de previdência e aposentadoria, sem explicar que na Suécia a expectativa de vida já é de 85 anos, e professores da educação básica tem piso inicial de mais de 22 mil reais 

*Jonas Almeida, às 19:35

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Política & Economia / O economista Leonardo Rolim é um dos autores de uma nova proposta de Reforma da Previdência no Brasil. Segundo matéria do Correio Brasiliense (27/08/2026), esse moço, a serviço do mercado financeiro — diz que "o principal modelo na qual ela [essa reforma] foi inspirada é o sueco". Que maravilha!

Nossa elite burocrática e econômica agora quer transformar o Brasil numa Suécia de gabinete. A nova e portentosa ideia para a reforma da previdência é fixar a idade mínima de aposentadoria em 67 anos para homens e mulheres, justificando a barbaridade sob a charmosa desculpa de alinhar o país às "melhores práticas nórdicas". De repente, por um passe de mágica dos gabinetes climatizados da Faria Lima, o trabalhador que pega três conduções lotadas e engole poeira sob um calor tórrido acorda vivendo em Estocolmo. É a própria magia do liberalismo de boutique: importar os deveres escandinavos sem jamais ter oferecido os direitos correspondentes.


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Esquecem-se — ou fingem esquecer com a canalhice de praxe — que no modelo original que tanto admiram, a expectativa de vida ultrapassa com folga os 83 anos, amparada por saneamento universal, segurança pública exemplar e um sistema de saúde irretocável. No Brasil real, onde em várias regiões a expectativa de vida mal encosta nos 70 anos e a população trabalhadora chega aos 50 com a coluna moída e a saúde estraçalhada, exigir 67 anos de idade mínima não é sustentabilidade fiscal. É simplesmente converter a aposentadoria numa lenda urbana e transformar a certidão de óbito no único documento hábil para a concessão do benefício.

O escárnio atinge o ápice quando a proposta debruça-se sobre a categoria dos professores, prometendo a generosa caridade de permitir que se aposentem aos 64 anos, como lá fora. Escondem com esmero, contudo, que um docente em início de carreira na Suécia recebe, no mínimo, o triplo do nosso mofado Piso Nacional do Magistério, apenas R$ 5.130,63 em 2026. Lá, o profissional entra em sala sabendo que seu salário inicial (média de 41.500 coros suecas — R$ 22.223,33) paga as contas, garante a dignidade de sua família e reconhece a importância crucial de sua função, enquanto no Brasil o professor precisa dar aulas em três turnos e vender rifa no intervalo para não ver a luz cortada no fim do mês.

Mais risível ainda é a comparação das condições de trabalho no ambiente escolar. Na Suécia, o magistério é exercido em salas climatizadas, equipadas e com turmas reduzidas, que não passam de 25 alunos, permitindo um acompanhamento pedagógico humano e eficiente. Por aqui, empurram-se 40 ou mais estudantes em salas abafadas, sem ventilação e muitas vezes sem segurança elementar, exigindo que o docente seja, simultaneamente, educador, assistente social, mediador de conflitos e malabarista. Exigir que um professor resista a esse moedor de carne até os 64 anos é um atestado manifesto de perversidade.

O padrão dessa elite iluminada é sempre o mesmo: a "suecilização" dos deveres é imediata, mas a "suecilização" dos direitos é vetada por causa da famosa Lei de 'Responsabilidade Fiscal'. RolimPaulo Tafner e Armínio Fraga, outros dois economistas do mercado financeiro que estão por trás da proposta — não querem ouvir fala de taxar as grandes fortunas, combater a sonegação bilionária dos banqueiros ou tributar lucros e dividendos como se faz no modelo nórdico. Quando o assunto é sacrificar o topo da pirâmide, a Suécia vira um pesadelo socialista inaplicável; mas quando o objetivo é extorquir o pedreiro, a doméstica e o professor de escola pública, o modelo escandinavo ganha ares de urgência e sabedoria inquestionável.

Sejamos diretos e sem os eufemismos que a polidez acadêmica exige: essa proposta de reforma não passa de uma maquinação concebida por bandidos de colarinho branco. Trata-se de um assalto institucional arquitetado por engravatados insensíveis que buscam esfolar a carne do trabalhador até o último suspiro, tudo para engordar as margens de lucro de um sistema financeiro parasitário e faminto por fundos de previdência privada. Querem que o povo morra no posto de trabalho para garantir o dividendo do acionista, vestindo uma tirania vil com os trajes elegantes de uma falsa modernidade.

*Jonas Almeida é economista e segue o Dever de Classe

Envie também seu artigo para: pontodevista@deverdeclasse.org

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