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A Globo perdeu o debate e começa a perder o poder
A ausência do principal candidato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que optou por participar de um podcast de grande audiência no mesmo horário, expôs de forma contundente a perda de poder de agenda da emissora
A perda de centralidade do Grupo Globo no debate político brasileiro
O cancelamento do debate presidencial do Grupo Globo, que ocorreria quinta-feira (1º), simboliza uma mudança profunda na correlação de forças da comunicação política no Brasil. A ausência do principal candidato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que optou por participar de um podcast de grande audiência no mesmo horário, expôs de forma contundente a perda de poder de agenda da emissora. A decisão de Flávio Bolsonaro de também desistir do evento, receoso de se confrontar com Renan Santos (Missão), reforçou a percepção de que o monopólio simbólico da Globo sobre o debate público está em declínio.
Durante décadas, participar de um debate na Globo era quase uma obrigação inescapável para qualquer presidenciável relevante. A emissora funcionava como um filtro central da política nacional, capaz de consagrar ou desgastar candidaturas em rede nacional. O episódio recente, porém, mostra que essa lógica se fragmentou. Candidatos de ponta já não se sentem compelidos a submeter suas estratégias de comunicação ao calendário e ao formato definidos pela empresa.
O crescimento de podcasts, lives e plataformas digitais criou um ecossistema alternativo de visibilidade, no qual políticos podem falar diretamente a nichos e grandes audiências sem a intermediação tradicional da TV aberta. Ao escolher um podcast em detrimento do debate, Lula sinalizou que a audiência e a capacidade de mobilização desses novos canais podem ser tão ou mais relevantes do que a exposição em um estúdio da Globo. A emissora, por sua vez, viu ruir a premissa de que ainda detém o palco obrigatório da política nacional.
É importante notar que essa perda de centralidade não significa irrelevância absoluta. O Grupo Globo continua sendo um ator poderoso, com grande alcance e influência. No entanto, o episódio do debate que se viu obrigado a cancelar evidencia que seu poder deixou de ser hegemônico. A capacidade de impor pautas, horários e formatos foi relativizada por um ambiente midiático descentralizado, em que a atenção do público se distribui por múltiplas telas e plataformas.
O cancelamento do debate da Globo, portanto, não é apenas um contratempo de programação, mas um marco simbólico. Ele revela que o poder de mediação da emissora já não é suficiente para obrigar os principais atores políticos a se submeterem às suas regras. A disputa pela atenção do eleitor migrou para um terreno em que a Globo é apenas mais um competidor, e não o árbitro central do jogo.
Em um cenário em que podcasts, redes sociais e plataformas independentes ganham protagonismo, o Grupo Globo terá de repensar seu papel. A insistência em modelos de debate que partem da premissa de autoridade incontestável tende a produzir novos constrangimentos e cancelamentos. A emissora precisará dialogar com um ambiente em que o poder se distribui em rede, e não se concentra em um único polo.
O episódio do dia 1º ficará registrado como um sinal claro de que a era em que a Globo definia, quase sozinha, o grande palco da política nacional está chegando ao fim. A partir de agora, candidatos e eleitores dispõem de alternativas reais, e o poder de agenda da emissora passa a ser apenas um entre vários, sujeito à concorrência, à crítica e à escolha estratégica dos atores políticos.
Essa mudança não é apenas tecnológica, mas cultural e política. Ela indica um país em que o monopólio simbólico da informação se desfaz, abrindo espaço para novas formas de mediação e disputa de narrativas. O desafio, para a democracia brasileira, será transformar essa fragmentação em pluralidade qualificada, e não em mera dispersão de ruído. Nesse novo cenário, o Grupo Globo terá de aprender a conviver com a perda de poderio e a disputar relevância em condições mais horizontais do que aquelas a que se acostumou historicamente.
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*Saulo R Lustosa é cientista social e segue o Dever de Classe
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