O céu da língua, obra teatral com texto de Gregório Duvivier e direção de Luciana Paes, é um desses acontecimentos artísticos
que serão por muito tempo lembrados. Os motivos são muitos: o texto primoroso, a comicidade refinada, o próprio desempenho de Duvivier no palco, a celebração da nossa língua etc. Entre tantos assuntos possíveis, destacamos um que é caro a esta dupla de articulistas há um bom tempo: como levar nosso entusiasmo por questões de linguagem para um público mais amplo? A peça, digamos sem rodeios, realiza isso com maestria.
Divulgação científica no teatro?
Desde o já longínquo ano de 2011, estes que vos escrevem vêm se dedicando a um gênero conhecido como "divulgação científica". Na saudosa Revista Língua Portuguesa, tivemos a coluna "Academia", em que publicávamos artigos destinados a popularizar resultados de pesquisas acadêmicas. Estes artigos que ora produzimos honrosamente para o Jornal da USP são legatários daquela primeira iniciativa, empenhada em aproximar as reflexões sobre linguagem de um público mais amplo.
Tanto lá quanto cá, por vezes, lidamos com a seguinte questão: como tocar de fato o público leigo, indo além da nossa turma de aficionados pelo idioma? Esse não é o único, mas é nosso maior desafio. E, no teatro, O céu da língua o transpõe com engenho e sensibilidade.
A peça é certamente uma das poucas obras dramatúrgicas (quiçá a única) em cujo livro se apresentam "referências bibliográficas" com obras da linguística contemporânea – como Assim nasceu uma língua, do português Fernando Venâncio, e Latim em pó, de Caetano Galindo (que resenhamos na edição 144 da Revista USP). E as referências não são em vão.
Elas não estão ali como mero adorno acadêmico, mas se fazem ouvir no próprio texto dramático. Quando o ator, falando sobre a origem de línguas românicas, afirma que o português teria se originado de uma "preguiça consonantal", identificamos ecos do texto de Venâncio: em seu livro, o autor discorre exaustivamente sobre a hipótese de que a queda de "l" e "n" intervocálicos seria uma importante pista das origens galegas da língua portuguesa (como ocorre em "dolor > dor" ou "moneda > moeda", exemplos citados pelo dramaturgo e pelo linguista).
O que torna O céu da língua cativante, porém, não são, naturalmente, as referências, por mais que elas lhe deem sustentação. A beleza do texto decorre do olhar construído sobre os fenômenos da linguagem – seja a mudança linguística, seja a métrica decassílaba. A peça consegue encantar o público ao mostrar que a linguagem é, entre tantas outras coisas, reflexo da criatividade humana – ideia cara, aliás, a linguistas como Carlos Franchi, para quem o sujeito se constitui na e pela linguagem.
A visão positiva e o ato criador
Gregório Duvivier é graduado em Letras pela PUC-RJ, importante instituição que, inequivocamente, contribuiu para que o ator aderisse a uma visão positiva sobre o idioma nacional. Tal concepção implica analisar os fenômenos linguísticos de modo científico, buscando compreender (e, por que não, admirar) as diferentes variantes da língua.
Sem negar a óbvia relevância da norma-padrão, uma visão mais ampla e positiva reconhece que muito do que hoje consideramos forma "culta" já foi, em algum momento, tido como erro ou inovação popular – afinal, as próprias línguas românicas, ou "neolatinas", se originam do latim vulgar, ainda que tradição escrita e elites letradas tenham preservado certos traços do latim clássico. Assim, livre das amarras normativistas, que transformaram gerações de professores de língua em meros fiscais dos ditos "bons usos", o texto da peça lança luz sobre a beleza dos atos criadores que subjazem à língua e à própria linguagem.
Continua