A cena é curiosa: um candidato em rede nacional, gesticulando e discursando para o nada, enquanto tenta simular a presença de quem, mesmo ausente, domina o imaginário da disputa
Flávio Bolsonaro treina até desmaio contra púlpito 'vazio' de Lula
A cena é curiosa: um candidato em rede nacional, gesticulando e discursando para o nada, enquanto tenta simular a presença de quem, mesmo ausente, domina o imaginário da disputa
Flávio Bolsonaro, candidato do PL, decidiu treinar para o debate de hoje na Globo fazendo perguntas ao púlpito vazio de Lula, do PT, que não irá participar. A cena é curiosa: um candidato em rede nacional, gesticulando e discursando para o nada, enquanto tenta simular a presença de quem, mesmo ausente, domina o imaginário da disputa.

O episódio revela mais do que uma simples estratégia de mídia. Mostra que Lula é tão central na eleição que seu principal concorrente não consegue escapar de sua sombra, mesmo quando ele não está no estúdio. O adversário vira referência obrigatória, personagem invisível que organiza o roteiro, o tom e até o treino de quem sonha em enfrentá-lo.
Diante de um púlpito vazio, é fácil parecer firme, articulado e corajoso. O silêncio não interrompe, não rebate, não expõe contradições. No ensaio, o candidato pode vencer todas as discussões, derrubar todos os argumentos e sair do estúdio com a sensação de que está pronto para qualquer coisa.
O problema é quando o púlpito deixa de estar vazio. A história recente já mostrou que, diante de um adversário de carne e osso, com experiência e presença de palco, o desempenho pode ser bem diferente. Não é à toa que Flávio Bolsonaro passou mal e desmaiou durante um debate da Band com os candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 2016.
Sob pressão real, o corpo cobrou a conta que o discurso não conseguiu pagar. Testemunhas no local disseram o ora valentão em ensaios contra púlpito vazio chegou a cagar nas calças e, literalmente, melou a discussão.
Treinar contra o nada é confortável. Difícil é sustentar a mesma segurança quando o outro lado responde, provoca, ironiza e conhece o jogo. No fundo, o treino com o púlpito vazio acaba sendo um elogio involuntário a Lula: mesmo ausente, é tratado como o verdadeiro parâmetro de comparação, o adversário que precisa ser enfrentado, ainda que na base da imaginação.
Enquanto isso, o público assiste a um espetáculo curioso: um candidato que, para se mostrar forte, precisa simular um duelo com quem não vai estar lá. No palco da política, porém, não há ensaio eterno. Mais cedo ou mais tarde, o debate deixa de ser com o vazio, e a realidade costuma ser bem menos generosa do que o silêncio de um púlpito sem ninguém.
Lula ganha no primeiro turno! E o Flávio, até para o púlpito vazio irá perder.
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