Esse aspecto é relevante
porque associa à incapacidade dos partidos, dependentes dos recursos do Estado,
de articularem e representarem os distintos setores da sociedade, não exercendo
as funções de organização, mobilização e intermediação entre Estado e
sociedade.
Não representam nem
tampouco, como consequência, criam mecanismos para estimular a participação dos
filiados, mobilizados apenas em vésperas das eleições. Não há, portanto, canais
institucionais que permitam uma participação efetiva dos representados, cuja
participação se limita basicamente a votar periodicamente.
E isso explica, em
parte, o alheamento dos eleitores, que se expressa em altos índices de rejeição
aos partidos (e políticos) e abstenções, votos em brancos e nulos (No Brasil,
na eleição de 2022, foram mais de 32 milhões só de abstenção - mais
especificamente 32.200.558 - e somados aos votos em brancos e nulos totalizou
mais de 37 milhões - 37.901.001) e isso em um país com voto obrigatório (na eleição de 2022, atingiu o maior
percentual desde 1989).
Altos índices de
abstenções também têm sido constatados em eleições de muitos países, inclusive
os com larga tradição democrática.
E mesmo que diminua na
eleição de outubro de 2026, a considerar as eleições dos anos anteriores,
deve-se manter nesse patamar, algo em torno de 1/4 da população apta a votar,
que se abstém, anula o voto ou vota em branco.
Uma parte da explicação
é a descrença nos partidos políticos. No caso do Brasil, grande parte são
partidos oligárquicos, inconsistentes do ponto de vista programático e ideológico,
meras legendas de aluguel e os partidos
democráticos, que tem programas não
apenas para registro eleitoral, como o
PT, são atacados não apenas por esses partidos, como pela grande mídia
corporativa como o sistema Globo – rádio, jornal e televisão- grupo Bandeirantes, Jovem Pan (rádio e
televisão), jornais O Estado de S.Paulo, Folha de S. Paulo e outros menores nos estados, como a Gazeta do Oeste
de Curitiba, entre outros. Revistas como Revista Oeste e Veja, a plataforma
Brasil Paralelo, institutos Millenium e Mises, afora diversos canais de
comentários políticos de direita no Youtube, com milhares de seguidores, enfim,
um ecossistema da direita e extrema direita que têm atuado de forma sistemática
contra Lula e o PT e um exemplo recente, entre outros, é o foco em um pretenso
escândalo envolvendo o filho do presidente da República em detrimento dos
sucessivos escândalos do seu principal
oponente na eleição).
Outro aspecto importante
em relação aos partidos é o papel das mídias digitais, que passaram a ter maior
relevância para a decisão do voto, focado em pessoas, lideranças e não em
programas partidários. E mais do que isso, a extrema direita tem usado em
eleições, para desqualificar não apenas adversários, tornados inimigos,
questionar a legitimidade dos eleitos, das urnas eletrônicas (com mentiras),
construindo um ecossistema digital global, como revelam os dados disponíveis
com a prisão na Bolívia do argentino Fernando Cerimedo, estrategista da
campanha vitoriosa de Javier Milei na Argentina, que atuou na eleição
presidencial do Brasil em 2022, assim como de outros países, revelando a
existência de uma rede fascista na América Latina, com articulações internacionais e um vasto
esquema de corrupção e de ataques à democracia.
Eleitores desencantados
com o sistema político, partidos e políticos e mesmo com a própria democracia,
são usados para se criar as condições para mobilizações antipartidárias pela
extrema direita, inclusive com influenciadores digitais, criando
"bolhas" entre seus seguidores, com mentiras e fake news, mas
com inegável capacidade de articulação, organização e influência.
A estratégia não deu
certo na eleição presidencial de 2022, porque Lula venceu. E certamente, com o
apoio da grande mídia hegemônica no
Brasil, tentará , mais uma vez, impedir a sua reeleição.
Quanto aos partidos,
analisar e saber as razões sobre o papel representativo é fundamental: Estão em
declínio ou o seu papel procedimental é essencial para a democracia? É possível
prescindir dos partidos? Afinal, em que pese todas as críticas, formam
governos, promovem políticas públicas etc.
Para Peter Mair, em sua
análise sobre os partidos, um dos modos pelos quais os partidos poderão
garantir o seu futuro será enfrentando e aceitando as suas novas circunstâncias
(o avanço da tecnologia, o papel das redes sociais, o uso de Inteligência
Artificial, etc.) e procurando enfatizar a sua legitimidade como garantia da
permanência da democracia.
Se existe o papel cada
vez mais relevante das mídias digitais nas eleições, qual é a importância dos
partidos? Apenas servir para viabilizar candidaturas? A crítica ao modelo de
representação não deve significar rejeição aos partidos, mas defender que sejam
de fato, representativos. As democracias precisam de partidos para funcionar,
mas não da forma como os partidos se formam e atuam, especialmente no Brasil,
ou seja, de uma maneira geral, a maioria se formando e atuando como meras
"legendas de aluguel".
A luta pela conquista do
poder político nas democracias passa pelos partidos, que não podem prescindir
da participação política dos seus filiados e não tornarem partidos
oligárquicos, como muitos são.