Crise dos partidos e eleições 

27/08/2026

"Os partidos políticos, de uma maneira geral, não apenas se tornaram mais distantes da sociedade e oligárquicos — o que é incompatível com a democracia — como também se aproximaram mais do Estado"


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Prof. Dr. Homero Costa / O cientista político holandês Peter Mair, no artigo Há futuro para os partidos? (Revista Política Democrática, 2000), ao analisar os partidos políticos no final do século passado e início deste, afirmou que as perspectivas sobre o futuro dos partidos eram desalentadoras porque os partidos haviam perdido seus vínculos sociais e se tornado verdadeiras "máquinas eleitorais", com suas funções representativas cada vez mais empobrecidas, preocupados apenas com a conquista e a preservação do poder, e cada vez mais dependentes de recursos estatais.

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Os partidos políticos, de uma maneira geral, não apenas se tornaram mais distantes da sociedade e oligárquicos — o que é incompatível com a democracia — como também se aproximaram mais do Estado. Ou seja, houve um deslocamento da representação da sociedade para o Estado, regulado por ele, dependente de recursos e priorizando o papel de detentor de cargos públicos.

No entanto, os partidos políticos, embora sejam pouco eficientes como instância de representação, ainda tem um papel fundamental para a estabilidade do sistema político, ou seja, continuaram a ter importância no jogo político e parlamentar, na constituição e gestão dos governos, quer em países presidencialistas, como parlamentaristas. Mas é fato que não têm mais o mesmo protagonismo como agentes de mobilização e educação política.

Como diversos estudos mostram, existe uma crise da representação política, na qual os chamados representantes, eleitos pelos partidos, em geral, não representam os interesses daqueles que os elegeram, mas os próprios interesses e os de quem financia suas campanhas.

Esse aspecto é relevante porque associa à incapacidade dos partidos, dependentes dos recursos do Estado, de articularem e representarem os distintos setores da sociedade, não exercendo as funções de organização, mobilização e intermediação entre Estado e sociedade.

Não representam nem tampouco, como consequência, criam mecanismos para estimular a participação dos filiados, mobilizados apenas em vésperas das eleições. Não há, portanto, canais institucionais que permitam uma participação efetiva dos representados, cuja participação se limita basicamente a votar periodicamente.

E isso explica, em parte, o alheamento dos eleitores, que se expressa em altos índices de rejeição aos partidos (e políticos) e abstenções, votos em brancos e nulos (No Brasil, na eleição de 2022, foram mais de 32 milhões só de abstenção - mais especificamente 32.200.558 - e somados aos votos em brancos e nulos totalizou mais de 37 milhões - 37.901.001) e isso em um país com voto obrigatório (na eleição de 2022, atingiu o maior percentual desde 1989).

Altos índices de abstenções também têm sido constatados em eleições de muitos países, inclusive os com larga tradição democrática.

E mesmo que diminua na eleição de outubro de 2026, a considerar as eleições dos anos anteriores, deve-se manter nesse patamar, algo em torno de 1/4 da população apta a votar, que se abstém, anula o voto ou vota em branco.

Uma parte da explicação é a descrença nos partidos políticos. No caso do Brasil, grande parte são partidos oligárquicos, inconsistentes do ponto de vista programático e ideológico, meras legendas de aluguel e os partidos democráticos, que tem programas não apenas para registro eleitoral, como o PT, são atacados não apenas por esses partidos, como pela grande mídia corporativa como o sistema Globo – rádio, jornal e televisão- grupo Bandeirantes, Jovem Pan (rádio e televisão), jornais O Estado de S.Paulo, Folha de S. Paulo e outros menores nos estados, como a Gazeta do Oeste de Curitiba, entre outros. Revistas como Revista Oeste e Veja, a plataforma Brasil Paralelo, institutos Millenium e Mises, afora diversos canais de comentários políticos de direita no Youtube, com milhares de seguidores, enfim, um ecossistema da direita e extrema direita que têm atuado de forma sistemática contra Lula e o PT e um exemplo recente, entre outros, é o foco em um pretenso escândalo envolvendo o filho do presidente da República em detrimento dos sucessivos escândalos do seu principal oponente na eleição).

Outro aspecto importante em relação aos partidos é o papel das mídias digitais, que passaram a ter maior relevância para a decisão do voto, focado em pessoas, lideranças e não em programas partidários. E mais do que isso, a extrema direita tem usado em eleições, para desqualificar não apenas adversários, tornados inimigos, questionar a legitimidade dos eleitos, das urnas eletrônicas (com mentiras), construindo um ecossistema digital global, como revelam os dados disponíveis com a prisão na Bolívia do argentino Fernando Cerimedo, estrategista da campanha vitoriosa de Javier Milei na Argentina, que atuou na eleição presidencial do Brasil em 2022, assim como de outros países, revelando a existência de uma rede fascista na América Latina, com articulações internacionais e um vasto esquema de corrupção e de ataques à democracia.

Eleitores desencantados com o sistema político, partidos e políticos e mesmo com a própria democracia, são usados para se criar as condições para mobilizações antipartidárias pela extrema direita, inclusive com influenciadores digitais, criando "bolhas" entre seus seguidores, com mentiras e fake news, mas com inegável capacidade de articulação, organização e influência.

A estratégia não deu certo na eleição presidencial de 2022, porque Lula venceu. E certamente, com o apoio da grande mídia hegemônica no Brasil, tentará , mais uma vez, impedir a sua reeleição.

Quanto aos partidos, analisar e saber as razões sobre o papel representativo é fundamental: Estão em declínio ou o seu papel procedimental é essencial para a democracia? É possível prescindir dos partidos? Afinal, em que pese todas as críticas, formam governos, promovem políticas públicas etc.

Para Peter Mair, em sua análise sobre os partidos, um dos modos pelos quais os partidos poderão garantir o seu futuro será enfrentando e aceitando as suas novas circunstâncias (o avanço da tecnologia, o papel das redes sociais, o uso de Inteligência Artificial, etc.) e procurando enfatizar a sua legitimidade como garantia da permanência da democracia.

Se existe o papel cada vez mais relevante das mídias digitais nas eleições, qual é a importância dos partidos? Apenas servir para viabilizar candidaturas? A crítica ao modelo de representação não deve significar rejeição aos partidos, mas defender que sejam de fato, representativos. As democracias precisam de partidos para funcionar, mas não da forma como os partidos se formam e atuam, especialmente no Brasil, ou seja, de uma maneira geral, a maioria se formando e atuando como meras "legendas de aluguel".

A luta pela conquista do poder político nas democracias passa pelos partidos, que não podem prescindir da participação política dos seus filiados e não tornarem partidos oligárquicos, como muitos são.



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