O número de famílias assentadas e o
apoio às famílias acampadas se dão em função da luta e da organização do MST,
que "permitiram a conquista e a desapropriação de latifúndios em todo o país,
garantindo a criação de assentamentos da reforma agrária".
Um de seus principais objetivos é a
democratização da terra em um país com histórico secular de concentração
fundiária e de riqueza. Atualmente, apenas 1% das propriedades rurais concentra
cerca de 50% de todas as terras agricultáveis. Ainda assim, segundo o IBGE, a
agricultura familiar é responsável por aproximadamente 70% dos alimentos
consumidos no Brasil.
Entre as pautas centrais do MST,
destacam-se quatro eixos fundamentais: a democratização da terra e a criação de
novos assentamentos; a liberação de crédito para a produção de alimentos e para
a instalação das famílias; a Educação do Campo - com políticas como o Programa
Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) e a garantia de recursos para
a Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas
(Pronacampo); e a defesa de uma reforma agrária efetiva como política
fundamental para a soberania nacional.
Essa é a base para a defesa de uma
de suas principais reivindicações: a reforma agrária popular, que, ao longo do
tempo, tem enfrentado a paralisação de medidas, entraves burocráticos e a falta
de recursos para a efetivação das políticas públicas nessa área.
A reforma agrária popular compreende
a democratização do acesso a terra, em consonância com a Constituição de 1988,
que estabelece a função social da propriedade. Nesse sentido, cabe à União
desapropriar terra por interesse social, conforme o artigo 186, que determina
que a função social da propriedade rural é cumprida quando há: aproveitamento
racional e adequado; uso adequado dos recursos naturais e preservação
ambiental; observância das relações de trabalho; e exploração que favoreça o
bem-estar de proprietários e trabalhadores.
No entanto, não basta garantir o
acesso a terra por meio da desapropriação. É necessário também implementar um
conjunto de políticas públicas, como a criação de novos assentamentos, a
regularização fundiária, o acesso ao crédito, à moradia, à educação do campo e
a uma infraestrutura básica — eletricidade, saneamento, lazer, entre outros -
além do apoio à produção e à comercialização. O MST também defende a
desburocratização do acesso ao crédito e a soberania alimentar.
O que se propõe é um modelo
alternativo ao agronegócio, baseado na produção de alimentos saudáveis, em
contraposição ao uso intensivo de agrotóxicos - no qual o Brasil figura entre
os maiores consumidores mundiais - e de transgênicos.
Atualmente, segundo dados do MST,
existem 185 cooperativas, 120 agroindústrias e 1.900 associações, além de mais
de 120 mil famílias cadastradas pelo Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (INCRA), organizadas em cerca de 1.250 acampamentos em todo o
Brasil.
Destaca-se também o papel
fundamental das mulheres nesse processo, desde as primeiras ocupações, com
participação ativa em acampamentos e assentamentos. Um exemplo dessa atuação
são as Jornadas Nacionais de Lutas das Mulheres Sem Terra, realizadas
anualmente em março, especialmente no dia 8, Dia Internacional da Mulher.
Em julho de 2025, durante a semana
do Dia Internacional da Agricultura Familiar, o MST realizou a Jornada da
Semana Camponesa, com mobilizações em todo o país sob o lema "Para o Brasil
alimentar, Reforma Agrária Popular!". O objetivo foi ampliar o diálogo com o
governo federal para avançar nas políticas de reforma agrária e aumentar o
número de famílias assentadas, além de atender às cerca de 70 mil famílias
acampadas.
Ao longo de sua trajetória, o
movimento tem enfrentado a pressão do agronegócio, de latifundiários e de seus
aliados dentro e fora do Congresso Nacional (na mídia, redes sociais etc.).
Mesmo com compromissos assumidos por governos que ajudou a eleger, como o de
Luiz Inácio Lula da Silva, persistem resistências dos latifundiários, de seus
representantes no Congresso Nacional, de seus apoiadores na mídia hegemônica, e
nas redes sociais, à aquisição de novas
áreas e à implementação efetiva das políticas de reforma agrária, o que mantém
a concentração fundiária no país.
Nesse contexto, setores da direita e
da extrema direita buscam criminalizar o movimento, especialmente por meio da
acusação de invasão de terras. No entanto, tais ocupações ocorrem,
fundamentalmente, em latifúndios improdutivos, terras griladas ou propriedades
com irregularidades ambientais e trabalhistas, que passam a cumprir função
social ao serem destinadas à produção e à moradia de famílias sem terra.
Durante a Semana Camponesa de 2025,
foi divulgada uma carta pública que critica retrocessos no Congresso Nacional,
denunciando as ameaças à soberania nacional com
subordinação da agricultura brasileira às empresas transnacionais e "com
ações no Poder Legislativo, representantes dos interesses do agronegócio e da
mineração", como o chamado PL da
devastação, e a criminalização dos movimentos sociais e a especulação sobre
áreas de assentamento.
O documento reafirma que a soberania
nacional está diretamente ligada à soberania alimentar, construída por meio da
agricultura familiar camponesa e da reforma agrária.
Outro ponto destacado é que a
concentração fundiária permanece como uma das principais causas da desigualdade
no Brasil, gerando conflitos e violência no campo. Segundo a Comissão Pastoral
da Terra (CPT), entre 1985 e 2024, foram registradas 1.833 mortes em conflitos
agrários, sendo 44% delas na Amazônia. Assim como medidas que facilitam a
mineração e grandes obras em projetos de assentamentos rurais.
A reforma agrária popular, portanto,
envolve o acesso a terra, ao crédito, à moradia, à educação do campo e ao
fortalecimento da agricultura familiar.
Apesar disso, a reforma agrária
segue paralisada. O MST questiona a ausência de avanços concretos diante da
existência de mais de 70 mil famílias acampadas e cerca de 400 mil assentadas,
que aguardam políticas efetivas para ampliar a produção de alimentos livres da
especulação financeira e do uso intensivo de agrotóxicos.
Nesse cenário, a defesa da reforma
agrária popular se apresenta como um caminho necessário para a construção de um
país mais justo, comprometido com a sustentabilidade ambiental e a redução das
desigualdades sociais.
Uma data simbólica para o movimento
é 17 de abril, quando, em 1996, ocorreu o massacre de Eldorado de Carajás (PA),
no qual 21 trabalhadores rurais foram assassinados pela polícia. A data
tornou-se símbolo da luta pela terra e foi reconhecida internacionalmente pela
Via Campesina como o Dia Internacional de Luta Camponesa.
Em abril de 2026, milhares de
trabalhadores sem terra realizaram mobilizações em capitais e outras cidades do
país, incluindo ações em algumas sedes do INCRA, reunindo cerca de 20 mil
militantes em 17 estados e no Distrito Federal. O objetivo foi denunciar a
paralisação das políticas fundiárias e exigir que a democratização da terra
seja prioridade do Estado brasileiro.
As mobilizações também reivindicaram
investimentos em infraestrutura e apoio à produção agroecológica, reforçando
que a ausência de uma reforma estrutural da questão fundiária mantém milhões de
famílias sem acesso a terra.
Para o MST, a reforma agrária
popular deve garantir não apenas o acesso a terra, mas também a construção de
territórios baseados em relações sociais mais justas, na produção de alimentos
saudáveis e no enfrentamento das desigualdades e da violência no campo.