Em uma análise do que está em jogo nestas eleições,
a jornalista e escritora Eliane Brum propõe a existência de três cenários. No
primeiro, que ela chamou de "sonho possível", haveria a reeleição de Lula, um
Congresso renovado e o fortalecimento da democracia: "É o melhor que podemos
desejar no contexto atual".
O segundo cenário é o horror: Lula se reelege, e a
democracia talvez sobreviva, mas o Congresso segue dominado pela extrema
direita. Com minoria no Congresso — como no cenário atual —, Lula poderá ter,
como teve neste mandato, algumas derrotas. Entretanto, aquilo que depender do
Executivo terá possibilidade de avançar em pautas de interesse popular. Entre
as principais expressões do atual governo estão o conjunto de políticas sociais
implementadas nos últimos quatro anos, algumas delas criadas em seus governos
anteriores e retomadas depois dos sucessivos anos de retrocessos desde o golpe
contra Dilma Rousseff, em 2016.
Nesse cenário, com uma maioria de direita e extrema
direita, haveria um Congresso favorável ao desmatamento - não apenas da Amazônia, mas desta em
particular -, além da "exploração predatória da natureza, o enfraquecimento dos
direitos e o sucateamento da saúde e da educação e uma concepção de segurança
pautada pela violência contra os negros e os mais pobres, às ações que produzem
aquecimento global". Mas, com Lula, haveria maior chance de resistência.
No terceiro cenário, estaria a catástrofe, com a
vitória da extrema direita e tudo o que ela representou e representa. A
situação seria ainda mais grave caso fosse eleita com maioria no Congresso
Nacional (deputados e senadores), em um contexto marcado pela fragilidade e
pelas disputas internas no Supremo Tribunal Federal (STF), que teve papel
fundamental para conter os arroubos autoritários e a tentativa de golpe de
Estado do governo anterior, além de uma conjuntura global fortemente impactada
pelo governo de extrema direita dos Estados Unidos, sob Donald Trump, "que
busca fazer da América Latina o seu quintal".
Nesse cenário catastrófico, haveria condições mais
propícias para destruir a democracia. Com maioria no Senado, haveria a
possibilidade de impeachment de ministros do STF e de indicação, pelo
presidente da República, de mais quatro ministros, caso Lula não consiga
aprovar, ainda este ano, mais um, como tentou e não conseguiu. Com maioria no
STF, vale o alerta: "Se o Supremo for aparelhado politicamente com ministros
comprometidos com a extrema direita, a instituição estará a serviço não da
Constituição e da democracia, mas dos ocupantes do poder".
Seria a consolidação de um golpe que foi tentado,
mas não teve êxito. Para a extrema direita, não se trata de aperfeiçoar o
sistema de Justiça ou de propor reformas, como pretende o presidente Lula, mas
de transformá-lo em um espaço de defensores e/ou correligionários.
Esse cenário significaria um retorno ao passado,
aos retrocessos. A perspectiva de retorno da extrema direita tem de levar em
consideração o que foram os quatro anos do governo Bolsonaro: os constantes
embates com as instituições, em particular com o Supremo Tribunal Federal
(STF); uma retórica de confronto também contra o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), contra seus críticos e adversários; muitos episódios que não se
coadunavam com o decoro do cargo; falas desrespeitosas dirigidas a chefes de
Estado de outros países; hostilidade a governadores e prefeitos que seguiram as
recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a pandemia;
grosserias em relação às mulheres, aos negros e aos indígenas; insultos à
imprensa; além das reversões de políticas públicas de grande relevância social
e das privatizações para favorecer interesses de uma minoria.
Essencialmente, o retorno da extrema direita ao
poder significará o avanço de um projeto de destruição das instituições, do
meio ambiente, da cidadania e da cultura, da submissão do país aos interesses
dos Estados Unidos e da entrega de suas riquezas, como as terras raras e os
minerais críticos, como parte de um projeto autoritário mais amplo.
O que o país precisa é de lideranças políticas que
tenham a capacidade de reunificar a nação, e não o contrário; de uma
convivência política civilizada; de recuperar a confiança na democracia; de
defesa do Estado de Direito; de uma autoridade com experiência e capacidade de
governar para todos; de ser exemplo de conduta; de compreensão de que o Brasil
requer tanto eficiência econômica quanto justiça social; de combate e redução
das desigualdades; e de respeito aos direitos humanos, como no governo Lula.
Foi o governo que ampliou políticas públicas,
controlou a inflação, diminuiu o desemprego, defendeu os recursos naturais e os
povos indígenas e quilombolas e manteve programas importantes, criados em seus
governos anteriores, para a população mais pobre. Entre eles estão o Farmácia
Popular - retomado em 2023,
disponibiliza medicamentos gratuitos para 12 doenças, entre elas hipertensão,
diabetes, doença de Parkinson, asma e glaucoma -; o Gás do Povo, voltado para a
ampliação do acesso ao gás de cozinha para famílias de baixa renda; o Minha
Casa, Minha Vida; o Luz para Todos; o Cisternas do Sertão; o Brasil Sorridente;
o Aqui Tem Especialistas; e o Água para Todos. Enfim, trata-se de um conjunto
de políticas públicas em benefício dos mais pobres e excluídos.
Além da redução do desmatamento na Amazônia, pelo
quarto ano consecutivo, houve a retomada da trajetória dos dois primeiros
mandatos do presidente Lula, depois de quatro anos de alta durante o governo de
Jair Bolsonaro (2019–2022). Também houve a retomada da expansão de
universidades e institutos federais, ao contrário do governo anterior; apoio à
PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas por semana, com o fim
da escala de trabalho 6 x 1; e isenção do Imposto de Renda para quem ganha até
R$ 5 mil por mês.
E o que seu principal adversário, propõe? A
coordenadora responsável pela área econômica do plano do candidato do PL,
afirmou em um seminário em São Paulo, que a proposta do partido buscará
inspiração em medidas adotadas na Argentina pelo governo de Javier Milei.
Que exemplos são de inspiração? Com a justificativa
de fazer reformas, sob a alegação de
reduzir o papel do Estado e fortalecer o Mercado e assim cumprir uma agenda
neoliberal, o que tem havido no governo de Milei são retrocessos em todas as
áreas: cortes de investimentos públicos para a população mais pobre (hoje, mais
de 50% da população está abaixo da linha de pobreza), extinção de órgãos
voltados aos direitos das mulheres e justiça, privatização de empresas e órgãos
públicos, cortes na educação (além de acabar com o ministério da Educação, do
Trabalho, Cultura e Meio Ambiente, entre
outras medidas, vetou reajuste do orçamento das universidades públicas),
demissão de servidores públicos, repressão e violência contra opositores (a
permanente retórica do ódio - característica da extrema direita), submissão aos
interesses imperialistas dos Estados Unidos, precarização na saúde,
congelamento de salários, retrocesso generalizado em relação aos Direitos
Humanos. Enfim, o que se constata na Argentina é o aumento da pobreza, da desigualdade que
põe em xeque a própria democracia.
Nesse sentido, não pode servir de modelo para um
governo democrático e para enfrentar os riscos e perigos que a democracia corre
e os retrocessos em todas as áreas no Brasil, a maior arma que se tem é a
capacidade de mobilização e resistência contra a implementação de modelos
semelhantes e a eleição do dia 4 de outubro é uma data fundamental nesse
sentido, com voto em quem defende a democracia e suas instituições.
Os adversários são muitos - alguns poderosos,
inclusive do exterior, como expressam as interferências do governo de extrema
direita dos Estados Unidos na eleição no Brasil. Nesse sentido, no artigo "A
democracia em perigo, entre a erosão interna e a coerção externa", publicado na
revista Carta Capital no dia 24 de setembro de 2026, Leonardo Avritzer e Carmem
Leitão afirmam que o problema assume uma dimensão adicional: a erosão
democrática dos Estados Unidos "articula-se à instrumentalização de recursos
diplomáticos, econômicos, para constranger instituições e decisões soberanas de
outros países, instrumentos apresentados como proteção de direitos e da
segurança internacional, mobilizados para fragilizar a própria democracia".
Internamente, a extrema direita conta também com o
apoio de setores religiosos de extrema direita, especialmente no meio
evangélico, que usam politicamente a religião, mas também das big techs e de
sua enorme máquina com capacidade de manipular e decidir voto , além da mídia
hegemônica, que sempre teve papel importante nas campanhas eleitorais em defesa
de seus candidatos, e nesta eleição, com campanhas negativas sistemáticas
contra o presidente Lula, em seu esforço, eleição após eleição, para produzir
efeitos eleitorais não apenas contra Lula e o PT, mas também contra candidatos
de esquerda e a favor de seus opositores, da direita e da extrema direita, em
defesa de seus interesses e no caso do governo de Lula, para interromper os
avanços nas áreas sociais e nas políticas sociais inclusivas.
Essencialmente, em um cenário de recessão
democrática, de uma onda global de retrocessos e de governos de extrema
direita, inclusive na América do Sul, só há uma saída para a democracia se
manter no país, ainda que imperfeita: a reeleição de Lula e, melhor ainda,
associada a uma renovação do Congresso Nacional, com maioria parlamentar
progressista, buscando unidade em defesa do Estado Democrático de Direito.