Estudo investigou formas de acompanhar os níveis de ansiedade de maneira contínua e pouco invasiva, para tentar abrir novas possibilidades para a pesquisa em saúde mental
Sobre a interferência dos Estados Unidos na eleição presidencial no Brasil
A informação sobre esse tema foi divulgada no dia 19 de setembro pelo jornal Folha de S.Paulo, na coluna de Mônica Bérgamo, e confirmada pela TV Brasil de Comunicações e o jornal o Globo, que publicaram matérias a respeito, repercutida também em outros órgãos da imprensa
No final de agosto de 2026, com base na análise de documentos do governo dos Estados Unidos entre novembro de 2025 e maio de 2026, a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) elaborou um relatório, encaminhado ao presidente da República, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobre as "ameaças ao processo eleitoral de 2026", referindo-se à interferência dos EUA nas eleições no Brasil, classificando esse risco como de "nível de criticidade" e parte de uma escalada de pressões sobre o Brasil, de um movimento da ofensiva política sobre o cenário eleitoral brasileiro.
A informação sobre o relatório da ABIN foi divulgada no dia 19 de setembro pelo jornal Folha de S.Paulo, na coluna de Mônica Bérgamo, e confirmada pela TV Brasil de Comunicações e o jornal O Globo, que publicaram matérias a respeito, repercutidas também em outros órgãos da imprensa.
Conforme matéria de Mônica Bérgamo, no documento da ABIN "observa-se intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA" sobre o país, "sem ruptura de um padrão estrutural de influência já existente", e como prioridade do segundo governo de Donald Trump, reafirmando a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina.
Nesse sentido, um dos objetivos é a "redução da influência de potências rivais dos EUA na América Latina e de negação do acesso dessas potências a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região, em favor de seu controle, direto ou indireto, pelo governo dos EUA ou pelo capital privado estadunidense".
E que as suas ações, desde maio de 2026, "indicam tendência de escalada de pressão", especialmente depois que o governo de Trump passou a designar organizações criminosas brasileiras como terroristas e anunciou novas retaliações comerciais contra o país.
A classificação de facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, como se representassem uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, tem alimentado a extrema direita no Brasil e pode ser pretexto para uma invasão militar no país, como ocorreu na Venezuela, com o sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa.
No dia 22 de setembro de 2026, um grupo de 14 países que integram o chamado Escudo das Américas, lançado em março de 2026 nos Estados Unidos, do qual o Brasil não faz parte, aprovou um documento no qual as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho foram incluídas numa lista de 24 grupos "narcoterroristas". A decisão foi tomada em reunião às margens da Assembleia Geral da ONU, e foi conduzida por Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio. Os países signatários são: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
Mas as pressões políticas e econômicas, os ataques à democracia antecedem. Em julho de 2024, os Estados Unidos anunciaram tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros, e uma das justificativas era uma alegada "caça às bruxas" contra o ex-presidente aliado de Donald Trump, Jair Bolsonaro, naquele momento acusado e, pouco depois, em 11 de setembro de 2025, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de um golpe de Estado.
O documento dos EUA também faz referência a um déficit na balança comercial norte-americana, prontamente desmentido pelo governo brasileiro, mostrando, com dados irrefutáveis, que na verdade os EUA têm superávit histórico nas relações comerciais com o Brasil.
E continuou. No dia 16 de outubro de 2025, um documento do governo dos Estados Unidos, com 21 condições, foi apresentado a uma missão brasileira em Washington que tinha por objetivo discutir uma proposta de acordo após o tarifaço anunciado pelos EUA (em julho de 2024). O documento apresentado foi considerado inaceitável pelo governo brasileiro.
A revelação foi do jornal O Estado de S. Paulo, que teve acesso integral ao documento detalhando "as ambições de Washington em relação ao Brasil", salientando que, na maior parte dos casos, os pedidos eram relacionados à esfera comercial, mas havia também exigências políticas, como o compromisso do Brasil em realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 (como se não houvesse isso em eleições anteriores, uma exigência sem qualquer fundamento), da mesma forma quanto à exigência de que o Brasil deveria se comprometer a não deter, prender nem limitar arbitrariamente a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral.
Apesar de não mencionar o ex-presidente Jair Bolsonaro, pode ser interpretado como uma exigência relacionada a ele, que, no dia 11 de setembro de 2025, foi condenado a 27 anos e três meses de prisão, assim como ex-ministros de seu governo e militares de alta patente (generais de quatro estrelas). Os aludidos "dissidentes políticos" devem ser extensivos aos demais presos e condenados pela tentativa de golpe de Estado.
Além de exigências comerciais (como isenção de impostos para veículos automotores e peças), havia medidas para blindar empresas dos Estados Unidos de penalidades por infrações às leis brasileiras relacionadas à liberdade de expressão, como já havia ocorrido por decisão do STF, com o entendimento de não se confundir liberdade de expressão com cometimento de crimes em nome dela, como racismo, homofobia e misoginia, entre outros crimes, assim como há também penalidades pelo uso de desinformação para benefícios eleitorais (uso de mentiras, difamações, fake news etc.).
Um dos aspectos ressaltados no relatório da ABIN é quanto ao papel do Secretário de Estado e Assessor de Segurança Nacional, Marco Rubio, que, com o objetivo de influenciar a política externa dos países da América Latina, afirmou, entre outros absurdos para justificar uma possível intervenção no Brasil, que o presidente Lula era responsável pela imposição de tarifas contra produtos brasileiros, porque o presidente não aceitou - e nem aceita - as condições propostas pelos Estados Unidos.
Outro aspecto importante ressaltado no relatório da ABIN diz respeito à possível contestação do resultado eleitoral, por parte do governo dos Estados Unidos e seus aliados. No caso da América do Sul, em particular, dos governos de extrema direita, como a Argentina, Chile, Peru, Equador, Bolívia e Colômbia. Uma de suas consequências será a de alimentar o ecossistema da desinformação da extrema direita e fortalecer a possibilidade de intervenção e de um golpe de Estado no país com apoio dos Estados Unidos.
Em relação ao relatório da ABIN, no mesmo dia da matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 19 de setembro de 2026, o Instituto Vladimir Herzog, em documento assinado pelo seu diretor executivo, Rogério Sottili, foi enviado ao Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, no qual alerta para os riscos de ingerência externa e desestabilização democrática no Brasil, se referindo à possível interferência dos Estados Unidos na eleição de outubro de 2026 no Brasil.
Com base no relatório da ABIN, refere-se "à interferência externa entre os principais riscos ao processo eleitoral, identificando instrumentos como propaganda adversa, desinformação coordenada, agentes de influência e apoio encoberto a grupos e entidades". O entendimento foi o de que havia "sinais concretos de uma dinâmica de ingerência externa sobre o processo político e eleitoral brasileiro e de uma tentativa de condicionar decisões soberanas tomadas por nossas instituições".
E considerando mais grave ainda, o temor de que "caso essas pressões não produzam o resultado político pretendido antes da eleição, possam ser sucedidas por uma estratégia destinada a desacreditar o pleito, questionar sua legitimidade, retardar seu reconhecimento internacional e produzir instabilidade política depois da votação". (A íntegra do documento está disponível em https://vladimirherzog.org/instituto-vladimir-herzog-envia-carta-a-onu-sobre-os-riscos-de-interferencia-dos-estados-unidos-nas-eleicoes-brasileiras/).
No dia 22 de setembro de 2026, no discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque, o presidente Lula, entre muitos temas relevantes abordados, fez referências à ingerência (dos Estados Unidos) em assuntos internos de outros países que, no caso do Brasil, "conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias", com alusão aos falsos patriotas que "arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil".
Também se referiu às plataformas digitais que (...) trazem possibilidades de nos aproximar como jamais havíamos imaginado, mas que "têm sido usadas para semear intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação".
O presidente fez uma defesa do multilateralismo; críticas ao genocídio na Palestina (na Faixa de Gaza) por parte de Israel; denunciou o embargo criminoso contra Cuba; defendeu a existência de dois estados, "solução defendida por mais de 150 membros da ONU, reafirmada ontem, aqui neste mesmo plenário, mas obstruída por um único veto"; também se referiu aos atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais "que estão se tornando a regra", aludindo também aos que "cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais, e cerceiam a imprensa".
Sobre a desinformação em relação às eleições, em julho de 2026, o senador e candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro apresentou a diplomatas estrangeiros uma informação falsa relacionando as urnas brasileiras à empresa Smartmatic. E até mesmo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, um ministro indicado ao STF por seu pai, teve de publicar um documento esclarecendo que a companhia jamais forneceu urnas ou software de votação ao Brasil.
O aspecto principal do processo de intervenção dos Estados Unidos na eleição presidencial no Brasil não se resume apenas às eleições. Faz parte de uma política mais ampla de expansão imperialista na América Latina, expressa no apoio a governos de extrema direita na região, a serviço das classes dominantes não apenas dos Estados Unidos, como do Brasil, uma espécie de retorno da Doutrina Monroe (A América para os americanos), na qual o Brasil, por sua relevância econômica e política, seus recursos estratégicos, como minerais críticos e terras raras, tem uma posição central nesse processo.
Em relação às eleições, é preciso considerar também o papel das big techs e, não por acaso, o presidente Lula, em seu discurso na ONU, salientou a necessidade de sua regulação, destacando que "A internet não pode ser uma 'terra sem lei'. Cabe ao poder público proteger os mais vulneráveis", salientando que "Regular não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual. Ataques à regulação servem para encobrir interesses escusos e dar guarida a crimes, como fraudes, tráfico de pessoas, pedofilia e investidas contra a democracia".
As big techs são aliadas de Donald Trump nesse processo, com enorme e poderoso arsenal de manipulação para influenciar e decidir eleições. No artigo As big techs e o fascismo, publicado no site A Terra é Redonda no dia 9/1/2025, Eugênio Bucci afirma que "Mais do que correias de transmissão instrumentais, elas são o laboratório que sintetiza a mentalidade obscurantista, as pulsões violentas, os vetores do ódio, a intolerância, ou, sejamos precisos, o fascismo em suas roupagens pós-mussolínicas".
Muito antes do discurso na ONU, o presidente Lula tem defendido a soberania do país, afirmando que "o Brasil não é quintal de ninguém" e que não se submeterá a pressões externas, que "não se curvará à arrogância de nenhum presidente de nenhum país do mundo e que o Brasil fará aquilo que é de interesse do povo brasileiro (...) que a nossa soberania, a democracia brasileira é intocável. Aqui, ninguém põe a mão!".
Nesse sentido, o governo brasileiro e as instituições democráticas devem resistir a toda forma de agressões e de ingerências externas no processo eleitoral e garantir as condições para o respeito aos resultados das urnas, em especial com a vitória de Lula.
O governo avalia que as interferências externas ocorrem em algumas frentes e que é preciso enfrentá-las. Além da pressão política, como explicita o relatório da ABIN (a "intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA"), com o apoio da extrema direita interna; o impulsionamento digital de perfis pagos, como ocorreu em eleições em outros países, como na Colômbia e em Honduras, e a desconfiança de que isso possa estar também sendo utilizado no Brasil em apoio às candidaturas de extrema direita, além de encontros realizados por autoridades norte-americanas com influenciadores digitais brasileiros da extrema direita com o pretexto de discutir liberdade de expressão e ambiente digital.
Esse conjunto de ações configura um perigo real para a democracia no Brasil, e às eleições em particular, pavimentando o caminho para os retrocessos políticos, sociais e econômicos de um retorno da extrema direita ao poder.
*Homero de Oliveira Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR).
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