O milagre individual para problemas coletivos
A retórica da autoajuda costuma repetir que "tudo está na mente" e que "basta mudar a vibração" para que a vida se transforme. É uma narrativa conveniente: se tudo depende apenas do indivíduo, não é preciso falar de desigualdade, exploração, violência estrutural ou falta de políticas públicas. O sistema agradece.
Problemas que nascem de salários miseráveis, jornadas exaustivas, racismo, machismo, precarização do trabalho e falta de acesso a direitos básicos não se resolvem com afirmações positivas diante do espelho. Não há mantra que substitua justiça social, nem visualização criativa que pague aluguel atrasado.
Prometer saídas milagrosas individuais para problemas que têm raízes coletivas é, no mínimo, desonesto. No máximo, é um negócio extremamente lucrativo.
O guru que ama a sua dor (desde que ela pague à vista)
O mercado da autoajuda adora histórias de superação, desde que sejam simples, emocionantes e, de preferência, pouco verdadeiras. A figura do "guru" surge como alguém que "já sofreu como você", mas que, por algum motivo místico, descobriu um segredo que ninguém mais sabe. E, generosamente, está disposto a compartilhar esse segredo… mediante pagamento.
Não se trata de apoiar processos reais de mudança, que são lentos, contraditórios e cheios de recaídas. Trata-se de vender a ilusão de que existe um atalho. A pessoa não compra um livro; compra a esperança de que, desta vez, finalmente, tudo vai mudar sem que seja preciso enfrentar o que é estrutural, político e coletivo.
Enquanto isso, quem vende a fórmula acumula seguidores, capital simbólico e, claro, dinheiro. Muito dinheiro.
Responsabilização individual como produto
Uma das estratégias mais elegantes desse mercado é transformar qualquer fracasso em culpa exclusiva da vítima. Se o método não funcionou, é porque a pessoa "não acreditou o suficiente", "não se esforçou de verdade" ou "não estava pronta para a abundância". O método é infalível; falível é sempre quem compra.
Essa lógica é perfeita para quem lucra com a miséria alheia: vende-se a solução e, se ela não funciona, vende-se a culpa. Em seguida, oferece-se uma nova solução, ainda mais cara, para "desbloquear" aquilo que a anterior não desbloqueou. É um ciclo de consumo emocional travestido de evolução pessoal.
Entre a ajuda real e o espetáculo da salvação
Existe trabalho sério em psicologia, terapia, educação, organização coletiva e apoio comunitário. Mas isso exige tempo, ética, estudo, compromisso e, principalmente, a honestidade de admitir que ninguém salva ninguém sozinho. Processos de mudança envolvem relações, contextos, políticas públicas e redes de apoio.
O espetáculo da autoajuda prefere o contrário: soluções rápidas, frases de efeito, promessas infladas e uma boa estratégia de marketing digital. Em vez de fortalecer a autonomia, reforça a dependência. Em vez de estimular a crítica, vende conformismo embalado em linguagem motivacional.
Nem milagre, nem fórmula: responsabilidade compartilhada
Não há saída milagrosa individual para problemas que nascem de estruturas injustas. Há, sim, caminhos coletivos, lutas compartilhadas, políticas que podem ser transformadas e vínculos que podem sustentar mudanças reais. Isso não cabe em um e-book de 30 páginas, nem em um curso relâmpago de fim de semana.
Quem se propõe a "ensinar a viver" em troca de um número de cartão de crédito, na maioria das vezes, não está interessado em que ninguém resolva nada sozinho. O que se busca é um cliente recorrente, não um sujeito autônomo. A verdadeira ajuda não tem medo de perder o próprio "mercado" quando alguém finalmente se fortalece.
Entre a promessa de salvação instantânea e o silêncio cúmplice diante das injustiças, a ironia talvez seja apenas um lembrete: quando a dor vira produto, a cura raramente é o objetivo principal.
*Lino Costa, é Cientista Social e seguidor do Dever de Classe. Preferiu não revelar sua imagem no site e sugeriu que puséssemos um gato, animal de sua predileção.
Envie também seu artigo para pontodevista@deverdeclasse.org