A qualidade do resultado de IA depende da clareza e da precisão do comando recebido; quando a instrução é vaga, confusa ou mal formulada, o sistema tende a produzir respostas insatisfatórias
Contra a tirania e a servidão voluntária
Reflexões a respeito do Discurso sobre a servidão voluntária, clássico da filosofia política ocidental, de autoria de Étienne de La Boétie
No volume I dos Ensaios, de Michel de Montaigne (1533-1592), no capítulo XXVII — Da amizade — o autor trata da sua amizade com Étienne de La Boétie (1530-1563). Em 1548, aos 18 anos, escreveu o que Montaigne chamou de discurso e, com a morte de La Boétie em 1563, herdou sua biblioteca. Coube a Montaigne a publicação, em forma de livro, do manuscrito, a que deu o nome de Discurso sobre a servidão voluntária, afirmando que "os que ignoraram esse nome depois rebatizaram-no com muita propriedade de Contra Um".

Este livro, escrito em forma de ensaio, por um autor muito jovem, foi, no dizer de Montaigne, "em honra da liberdade contra os tiranos" e que "há muito tempo ele corre pelas mãos das pessoas inteligentes, não sem um prestígio muito grande e merecido; pois é nobre e tão sólido quanto possível".
O livro é um libelo contra a tirania e a servidão, e sobre a pior delas: a voluntária. Trata-se de uma reflexão sobre o poder e à submissão a ele. No século em que viveu (XVI), em especial na Europa, predominavam, incluindo a França, onde ele nasceu, as monarquias absolutistas, que o antecederam e foram muito além dele, com o indispensável apoio da então poderosa Igreja Católica. Essas monarquias justificavam seu poder atribuindo-lhe um "direito divino" no qual a autoridade dos reis emanava diretamente de Deus.
O livro teve muitas edições ao longo dos séculos seguintes, na França e em diversos países, evidenciando sua qualidade e importância. No Brasil a primeira edição foi publicada com o título Discurso da servidão voluntária em 1982, pela Editora Brasiliense (SP), em edição bilíngüe, com tradução do professor da Unicamp Laymert Garcia dos Santos, e artigos de Pierre Clastres (Liberdade, mau encontro, Inominável), Claude Lefort (O nome de um) e Marilena Chauí (Amizade, recusar do servir).
Como o tradutor explica na introdução, o texto da edição francesa que consta no livro, foi baseada na tradução de Pierre Leonard do manuscrito De Mesmes, mas também traduz outra versão, de Charles Teste que considerou como uma "traição grosseira" do texto original.
O livro é uma defesa da liberdade e uma crítica a todas as formas de tirania. Para ele, não é natural que as pessoas se sujeitem ao poder absoluto, porque todos nascem livres e iguais, e seu objetivo é compreender as razões pelas quais se troca a liberdade pela servidão.
Nesta obra, a questão central é a relação de sujeição, de servidão, indagando "Como Um, dotado de apenas dois olhos, duas mãos, dois ouvidos e dois pés, frequentemente um homúnculo covarde e não um Sansão ou um Hércules se encontra provido de milhares de olhos e ouvidos para espionar, de milhares de mãos para pilhar, de milhares de pés para esmagar? Onde obteve esse corpo gigantesco? A resposta: Sois vós quem lhe dais todos os órgãos de que precisa para vos manter sob seu poderio, para vos destruir e às vossas famílias, para pilhar vossos bens e derramar vosso sangue em guerras que o fortalecem para vos enfraquecer. É o povo que gera o soberano que o aniquila".
Para La Boétie, o tirano é um homem como outro qualquer: possui apenas dois olhos, duas mãos, um corpo e dois ouvidos "De onde saiu essa figura colossal que nos esmaga, esses olhos que nos espionam, essas mãos que nos pilham? De onde sai toda essa força que a todos condena, julga e agride?".
Para a filósofa e professora Marilena Chauí o Discurso da servidão voluntária não propõe um programa de ação para a luta contra a tirania; apenas não se lhe dê o que ele pede: "Não servir é resgatar aquilo que é contrário à servidão: a igualdade dos amigos (...) ou como indaga La Boétie, como se enraizou tão antes essa obstinada vontade de servir? Eles o fazem porque não desejam a liberdade e não a desejam porque ela lhes parece 'demasiado fácil'. A renúncia à liberdade é gênese simultânea da vontade de servir e do poder do Um, renúncia produzida por uma divisão no interior da vontade, cindida entre o desejo de liberdade e o desejo de servir". (Contra a Servidão Voluntária. Autêntica Editora/ Fundação Perseu Abramo, 2013),
Uma das explicações é o uso não apenas do medo e da violência, como também de técnicas de manipulação e propaganda para influenciar a opinião pública. O nazismo compreendeu isso muito bem ao fomentar ódio aos judeus e dominar pelo medo, de construção de um inimigo que deveria ser exterminado (além de judeus, comunistas, homossexuais, ciganos etc.) e teve amplo apoio na sociedade alemã, como mostra, entre outros, o livro Os carrascos voluntários de Hitler, de Daniel Jonah Goldhagen (Editora Campanhia das Letras, 1997).
E aspecto importante: tiranos também podem ser eleitos (Hitler e Mussolini são apenas dois exemplos), assim como muitos ditadores ao longo da história (no Brasil e em muitos outros países), com apoio de parte considerável das respectivas populações.
Para La Boétie, além do medo e da possibilidade do uso da força e das armas pelos tiranos, as pessoas não lutam contra a tirania porque habituaram-se a ela. O tirano não é detentor de nenhuma excepcionalidade humana. E o poder que tem, "fomos nós que demos".
No artigo Multidões virtuais (Revista Carta Capital, 19 de fevereiro de 2025), a psicanalista Maria Rita Khel , ao fazer referência ao livro de La Boétie, indaga: não seria a permissão dos servos voluntários a busca pela proteção que os tiranos oferecem a quem lhe é fiel e obedece sem questionamentos? Não há também uma identificação com a tirania? Não é preciso que haja, por parte de quem adere, uma identificação com aquilo que o líder defende? Nesse sentido, não são apenas iludidos por discursos, mas são igualmente reacionários, preconceituosos e autoritários.
Como explicar, por exemplo, que um dos piores presidentes de um país na condução de uma crise como da pandemia da covid-19, que vitimou milhares de pessoas, continue sendo objeto de admiração e culto à personalidade?
Uma leitura e interpretação atualizada da obra de La Boétie é o artigo Servidão voluntária, bolsonarismo e eleição, publicado no site A terra é redonda no dia 4 de setembro de 2026, por Liszt Vieira, professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Ele considera esclarecedor a associação entre o livro Discurso da servidão voluntária ao que chamou de fenômeno do fanatismo político do bolsonarismo, destacando que ele oferece "uma chave filosófica para pensar por que pessoas podem aderir voluntariamente a uma autoridade e até defender aquilo que as submete".
A lição fundamental é que o poder se mantém "porque os indivíduos, por hábito, medo, interesse, identificação ou conformismo, continuam oferecendo sua colaboração".
O poder de um tirano não depende apenas da coerção, como ensina Antonio Gramsci (1891-1937), mas também, e especialmente, do consenso. É no consentimento ativo que se constitui o poder, legítimo ou não.
O que não é o caso do militante fanatizado, que se identifica com os valores do seu líder (anticomunismo tosco, desinformação, conservadorismo moral, oposição à esquerda, defesa das armas, etc)., ou seja, defender o líder passa a significar defender a sua própria identidade.
Nesse sentido, a obediência, o apoio e servidão não precisa ser imposta pela força. Ela pode ser produzida pela adesão emocional. O indivíduo acredita que está exercendo sua liberdade justamente quando reproduz as posições do líder e do grupo. É o paradoxo da "servidão voluntária": a pessoa participa ativamente da manutenção de uma autoridade que limita sua própria capacidade de julgamento.
Os que não aderem, discordam de suas políticas, atos e palavras, a disseminação de mentiras e desinformação (ou falsa informação), do pensamento estereotipado e de análises simplistas etc., não são apenas desqualificados, mas hostilizados, assim como qualquer tentativa de debate mais aprofundado baseado em fatos e não em mentiras.
O que La Boétie propõe é uma da recusa da tirania e da
servidão voluntária, da dominação do poder de um ou de poucos sobre os demais.
Para resistir ao tirano, diz ele, basta
o desejo de não mais ser subjugado, ter vontade de ser livre e lutar por esta
condição. Daí a necessidade de uma ação política de não-dominação ou de
servidão e de se buscar novas relações e modos de vida não-autoritários que se
constitua em melhor antídoto contra a tirania e a servidão. Voluntária ou não.
*Homero de Oliveira Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR).
Publicidade
Leia mais...
Autoajuda, autoengano, mercado da miséria humana ou quando a “ajuda” vem com código de barras
Prometer saídas milagrosas individuais para problemas que têm raízes coletivas é, no mínimo, desonesto. No máximo, é um negócio extremamente lucrativo
Ex-assessor de Milei e amigão dos Bolsonaros é detido suspeito de mandar matar ex-parceira
Fernando Cerimedo foi detido na madrugada desta terça-feira como principal suspeito de um ataque a tiros contra sua ex-parceira em um hotel localizado em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, segundo informações preliminares das autoridades locais
Datas envolvem Natal e Ano Novo e as unidades deverão organizar escalas de revezamento entre os dois períodos de recesso, de forma a garantir a continuidade dos serviços considerados essenciais, especialmente aqueles voltados ao atendimento ao público
>> Dr. Ralcyon Teixeira é uma das maiores autoridades do país no assunto e diretor médico do Emílio Ribas, hospital referência na área de infectologia
>> Leia mais




