O Partido Digital Bolsonarista e sua atuação em eleições

01/09/2026

Um partido digital é o que se apropria das ferramentas digitais para promover outras formas de mobilização e participação, desafiando as estruturas hierárquicas tradicionais dos partidos convencionais 

Por *Homero Costa

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Homero CostaNo início de 2026, o CEBRAP – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – e o CCI (Centro para Imaginação Crítica), publicaram o livro intitulado O Partido Digital Bolsonarista (versão e-book, com 287 páginas), organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira, com a participação dos pesquisadores Daniela Constanzo, Carol Luck, Leonardo Barbosa, Mércia Alves e Paulo Yamawake.

O livro tem uma introdução (Marcos Nobre), oito capítulos (O PDB como uma nova forma política; Cadeias de lealdades no PDB; Coordenação do PDB nas redes; Quem manda no PDB; 7 de setembro: ritual, visibilidade e ordenação interna; Como o PDB se financia; O PDB na arena eleitoral, O PL e o PDB na Câmara dos Deputados), e conclusões. 


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O livro foi resultado de três anos de pesquisas (2023-2025), incluída uma extensa revisão da literatura sobre sistemas partidários e eleitorais e governos representativos. Embora salientem o caráter ainda "exploratório, incipiente e preliminar" da pesquisa, o que eles fizeram, como afirma Eugênio Bucci, no artigo O partido clandestino da extrema direita (O Estado de S.Paulo, 11 de junho de 2026) foi"jogar uma luz pioneira sobre um aparato bilionário que se escondia nas trevas".

Bucci afirma que o "furor das massas hipnotizadas, no abominável histrionismo da extrema direita, dentro daquele feixe caudaloso de desvios comportamentais, mora um bicho inesperado. A sanha do ódio surdo que atropela as boas maneiras domésticas tem por trás de si o arcabouço e a essência de um – pode acreditar – partido político muito bem azeitado".

O livro, como salientando na introdução, não é uma mera coletânea de textos, mas resultado de uma pesquisa coletiva com o objetivo de analisar o que os autores qualificam como o partido digital bolsonarista, que "não é uma organização de fins meramente manipulativos, mas uma organização que opera como partido, diferente dos chamados partidos tradicionais (ou analógicos)".

Um partido digital é definido como "uma organização que se apropria das ferramentas digitais para promover outras formas de mobilização e participação, desafiando as estruturas hierárquicas tradicionais dos partidos convencionais. Ele atua à margem das instituições que regulam a competição política, com impacto sobre o modo como as ações políticas e financeiras são desenvolvidas no sistema político e eleitoral". E seu conceito "não cabe nas definições habituais encontradas no debate público e na literatura especializada sobre o que seja um partido".

Não são partidos tradicionais que se digitalizaram, porque já nasceram digitais e não recorrem à internet "como se ela fosse uma das muitas ferramentas que os partidos tradicionais podem utilizar para ampliar o seu alcance". Sua característica principal é que seguem a lógica que é própria das redes.

Um aspecto relevante é que não têm a estrutura formal de um partido político, com sede, direção, programa, filiação formal, estatuto etc. e, não seguindo a legislação eleitoral, têm a vantagem em relação aos partidos tradicionais, de poder atuar em vários partidos, de atuar e se articular como poder suprapartidário, como partidos que compõem à base do bolsonarismo no Congresso Nacional, embora tenha o PL como partido e hospedeiro preferencial e a pretensão de representar o bolsonarismo.

Trata-se de uma inovação política que, para existir, depende de um ecossistema digital e uma lógica que deve ou tem a pretensão de se impor, e funciona de forma distinta em relação os padrões tradicionais dos partidos em termos de coordenação, hierarquia, disciplina e atuação institucional.

No capítulo O partido digital como uma nova forma política (p.23-62), Marcos Nobre e Leonardo Barbosa analisam o partido digital bolsonarista como algo novo na política brasileira, inserido no contexto da ascensão da extrema direita global, com suas especificidades locais – e exemplificam a sua contribuição para o êxito na eleição presidencial de 2018, com uma campanha baseada amplamente na militância digital.

E embora não repetisse o feito na eleição de 2022, "na onda de candidaturas da direita radical", conseguiu eleger governadores e uma grande bancada no Congresso Nacional e nesse sentido, como afirmam, o que parecia uma perturbação inesperada e transitória no cenário político brasileiro revelou-se, na verdade, uma mudança irreversível.

E é exatamente essa "mudança irreversível" que deve ser analisada e compreendida (e também questionada) e o livro trata de alguns aspectos desse processo, dessa nova forma de ação política organizada "cujas dinâmicas e cujos processos decisórios ocorrem na esfera digital".

Como salientam, trata-se de uma organização política que representa uma ruptura com os partidos de massa nascidos nos Estados Unidos e Europa no final do século XIX e também nas formulações do cientista político francês Bernard Manin, que em 1995 publicou um livro de referência sobre as transformações dos governos representativos (Principes du gouvernement représentatif, Editora Champs Flammarion,1995), e mais especificamente no capítulo VI, analisa o que chamou de metamorfoses do governo representativo, a passagem da democracia de partidos, para a democracia de público, característica do final do século XIX e grande parte do século XX nas democracias representativas.

No caso de partidos digitais, são diferentes, não se trata de democracias de público: eles resultam justamente da crise dos partidos representativos, da erosão da mediação dos partidos tradicionais, e não se trata mais de democracia de público porque estas foram "transformadas com o surgimento das tecnologias digitais e das mudanças subsequentes na comunicação e na formação da opinião pública", até porque esse tipo de partido (digital) têm como uma de suas características ser de extrema direita e, portanto, antidemocráticos, de ataques frontais à democracia.

Para os autores, em se tratando de uma nova forma de organização política, e o que chama de um modelo alternativo de partido, não significa afirmar que substituirá ou fará desaparecer outras formas de organização, mas que se organiza e se estrutura em outro momento histórico, com o avanço das tecnologias digitais, da internet, da ampliação (e uso eficaz) das redes sociais, e mais recentemente, com o uso de Inteligência Artificial.

E esta é uma questão relevante: saber como o bolsonarismo se organiza, como atua à margem da estrutura partidária tradicional, mobiliza seus seguidores (um dos capítulos trata mais especificamente das mobilizações dos 7 de setembro durante o governo Bolsonaro) e mantém a lealdade política de sua base de apoio (os autores se referem ao economista alemão Albert Hirschman e mais especificamente a sua teoria da lealdade, que formam o que ele chama de cadeias da lealdade "como parte de uma discussão relevante sobre partidos políticos e suas bases").

O partido digital bolsonarista é organizado, com coordenação e atuação política, tanto nos parlamentos, com seus aliados e/ou representantes, como na sociedade, com intensa inserção nas redes sociais.

Trata-se, portanto, de uma organização política, que atua como partido mas, como afirma Bucci no citado artigo, que "nunca se registrou na Justiça Eleitoral e não presta contas a ninguém. Age como um aparelho influente e centralizado, mas, diferentemente das siglas partidárias, não tem existência oficial nem personalidade jurídica". E não é apenas o que ele chama de um amontoado de milícias digitais em transe, assim como "não é apenas um movimento de redes sociais animadas por influencers ensandecidos, mas um fenômeno de organização profissional e partido amarrado por uma disciplina férrea".

Existe uma coordenação "que emerge de mecanismos próprios à lógica das redes", e assim, não se trata de uma organização que disponha, entre outros aspectos, de ferramentas virtuais, de um novo domínio de atuação online, ou seja, apenas de digitalização dos partidos tradicionais, mas de um novo modelo partidário, mas que opera sob a dinâmica das redes. Na realidade, "a internet não é apenas mais um instrumentos de atuação, é o ambiente em que existem e operam".

E, tratando-se de um partido, mesmo sem registro formal na Justiça Eleitoral, como todos os partidos, visa à conquista do poder político, e se tornar uma referência organizada de uma parcela da sociedade que pretende representar e operando no ecossistema digital, sua legitimidade se constrói sobre a base da lógica digital.

Há alguns aspectos relevantes para sua compreensão: a forma como opera, quem manda, como se financia, as cadeias de lealdade, como se mobiliza, articula seguidores e engajamento nas redes, como se insere na arena eleitoral (tanto nas disputas eleitorais como na atuação no parlamento dos eleitos com seu apoio) e as hierarquias internas.

Em relação à participação eleitoral, há um capítulo no qual se analisa como o partido digital atua na arena eleitoral, e examina a sua aliança com o PL (com a incorporação do PL ao bolsonarismo) nas eleições municipais de 2024 e, entre outros aspectos, foi feito um levantamento de dados de investimentos de campanha digital e também na sua atuação na Câmara dos Deputados (há uma lista com os nomes de parlamentares, com perfis distintos, alguns do Centrão, dados eleitorais, comportamento nas redes sociais, etc.).

Como afirmam os autores, o partido digital bolsonarista "hackeia o PL e o tem como caminho prioritário para entrar nas instituições parlamentares e eleitorais", e o PL se tornou o partido preferencial, mobilizando e organizando o ecossistema bolsonarista.

Um aspecto importante salientado no livro é quanto à baixa (ou ausência de) regulação das plataformas digitais, que possibilita que esse partido utilize a infraestrutura de empresas privadas, (ainda) sem leis que obriguem a transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, e nesse sentido, com uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à fiscalização do Estado.

A questão central, especialmente nas eleições de outubro é saber qual o seu papel de fato, do poder e sua influência na decisão do voto, com seus seguidores nas redes, mobilizados e alimentados constantemente, inclusive com desinformação. Enfim, como nova forma organizativa na política brasileira, que se caracteriza por usar os meios digitais de mobilização e comunicação, atua nas eleições como ameaça para a própria democracia.


*Homero de Oliveira Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR)


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