O
livro foi resultado de três anos de pesquisas (2023-2025), incluída uma extensa
revisão da literatura sobre sistemas partidários e eleitorais e governos
representativos. Embora salientem o caráter ainda "exploratório, incipiente e
preliminar" da pesquisa, o que eles fizeram, como afirma Eugênio Bucci, no
artigo O partido clandestino da extrema
direita (O Estado de S.Paulo, 11
de junho de 2026) foi"jogar
uma luz pioneira sobre um aparato bilionário que se escondia nas
trevas".
Bucci
afirma que o "furor das massas hipnotizadas, no abominável histrionismo da
extrema direita, dentro daquele feixe caudaloso de desvios comportamentais,
mora um bicho inesperado. A sanha do ódio surdo que atropela as boas maneiras
domésticas tem por trás de si o arcabouço e a essência de um – pode acreditar –
partido político muito bem azeitado".
O
livro, como salientando na introdução, não é uma mera coletânea de textos, mas
resultado de uma pesquisa coletiva com o objetivo de analisar o que os autores
qualificam como o partido digital
bolsonarista, que "não é uma organização de fins meramente manipulativos,
mas uma organização que opera como partido, diferente dos chamados partidos
tradicionais (ou analógicos)".
Um
partido digital é definido como "uma organização que se apropria das
ferramentas digitais para promover outras formas de mobilização e participação,
desafiando as estruturas hierárquicas tradicionais dos partidos convencionais.
Ele atua à margem das instituições que regulam a competição política, com
impacto sobre o modo como as ações políticas e financeiras são desenvolvidas no
sistema político e eleitoral". E seu conceito "não cabe nas definições habituais encontradas
no debate público e na literatura especializada sobre o que seja um partido".
Não
são partidos tradicionais que se digitalizaram, porque já nasceram digitais e não recorrem à internet "como se ela
fosse uma das muitas ferramentas que os partidos tradicionais podem utilizar
para ampliar o seu alcance". Sua característica principal é que seguem a lógica
que é própria das redes.
Um
aspecto relevante é que não têm a estrutura formal de um partido político, com
sede, direção, programa, filiação formal, estatuto etc. e, não seguindo a
legislação eleitoral, têm a vantagem em relação aos partidos tradicionais, de
poder atuar em vários partidos, de atuar e se articular como poder suprapartidário,
como partidos que compõem à base do bolsonarismo no Congresso Nacional, embora
tenha o PL como partido e hospedeiro preferencial e a pretensão de representar
o bolsonarismo.
Trata-se
de uma inovação política que, para existir, depende de um ecossistema digital e uma lógica que deve ou tem a pretensão de se
impor, e funciona de forma distinta em relação os padrões tradicionais dos partidos em termos
de coordenação, hierarquia, disciplina e atuação institucional.
No
capítulo O partido digital como uma nova
forma política (p.23-62), Marcos Nobre e Leonardo Barbosa analisam o
partido digital bolsonarista como algo novo na política brasileira, inserido no
contexto da ascensão da extrema direita global, com suas especificidades locais
– e exemplificam a sua contribuição para o êxito na eleição presidencial de
2018, com uma campanha baseada amplamente na militância digital.
E
embora não repetisse o feito na eleição de 2022, "na onda de candidaturas da
direita radical", conseguiu eleger governadores e uma grande bancada no
Congresso Nacional e nesse sentido, como afirmam, o que parecia uma perturbação
inesperada e transitória no cenário político brasileiro revelou-se, na verdade,
uma mudança irreversível.
E
é exatamente essa "mudança irreversível" que deve ser analisada e compreendida (e
também questionada) e o livro trata de alguns aspectos desse processo, dessa
nova forma de ação política organizada "cujas dinâmicas e cujos processos
decisórios ocorrem na esfera digital".
Como
salientam, trata-se de uma organização política que representa uma ruptura com
os partidos de massa nascidos nos Estados Unidos e Europa no final do século
XIX e também nas formulações do cientista político francês Bernard Manin, que
em 1995 publicou um livro de referência sobre as transformações dos governos
representativos (Principes du
gouvernement représentatif, Editora Champs Flammarion,1995), e mais
especificamente no capítulo VI, analisa o que chamou de metamorfoses do governo representativo, a passagem da democracia de
partidos, para a democracia de público, característica do final do século XIX e
grande parte do século XX nas democracias representativas.
No
caso de partidos digitais, são diferentes, não se trata de democracias de
público: eles resultam justamente da crise dos partidos representativos, da
erosão da mediação dos partidos tradicionais, e não se trata mais de democracia
de público porque estas foram "transformadas com o surgimento das tecnologias
digitais e das mudanças subsequentes na comunicação e na formação da opinião
pública", até porque esse tipo de partido (digital) têm como uma de suas
características ser de extrema direita e, portanto, antidemocráticos, de
ataques frontais à democracia.
Para
os autores, em se tratando de uma nova
forma de organização política, e o que chama de um modelo alternativo de
partido, não significa afirmar que substituirá ou fará desaparecer outras
formas de organização, mas que se organiza e se estrutura em outro momento
histórico, com o avanço das tecnologias digitais, da internet, da ampliação (e
uso eficaz) das redes sociais, e mais recentemente, com o uso de Inteligência
Artificial.
E
esta é uma questão relevante: saber como o bolsonarismo se organiza, como atua à margem da estrutura
partidária tradicional, mobiliza seus seguidores (um dos capítulos trata mais
especificamente das mobilizações dos 7 de setembro durante o governo Bolsonaro)
e mantém a lealdade política de sua base de apoio (os autores se referem ao
economista alemão Albert Hirschman e mais
especificamente a sua teoria da
lealdade, que formam o que ele chama de cadeias
da lealdade "como parte de uma discussão relevante sobre partidos políticos
e suas bases").
O
partido digital bolsonarista é organizado, com coordenação e atuação política, tanto
nos parlamentos, com seus aliados e/ou representantes, como na sociedade, com
intensa inserção nas redes sociais.
Trata-se,
portanto, de uma organização política, que atua como partido mas, como afirma
Bucci no citado artigo, que "nunca se registrou na Justiça Eleitoral e não
presta contas a ninguém. Age como um aparelho influente e centralizado, mas,
diferentemente das siglas partidárias, não tem existência oficial nem
personalidade jurídica". E não é apenas
o que ele chama de um amontoado de milícias digitais em transe, assim como "não
é apenas um movimento de redes sociais animadas por influencers ensandecidos, mas um fenômeno de organização
profissional e partido amarrado por uma disciplina férrea".
Existe
uma coordenação "que emerge de mecanismos próprios à lógica das redes", e
assim, não se trata de uma organização que disponha, entre outros aspectos, de
ferramentas virtuais, de um novo domínio de atuação online, ou seja, apenas de
digitalização dos partidos tradicionais, mas de um novo modelo partidário, mas
que opera sob a dinâmica das redes. Na realidade, "a internet não é apenas mais
um instrumentos de atuação, é o ambiente em que existem e operam".
E,
tratando-se de um partido, mesmo sem registro formal na Justiça Eleitoral, como
todos os partidos, visa à conquista do poder político, e se tornar uma
referência organizada de uma parcela da sociedade que pretende representar
e operando no ecossistema digital, sua
legitimidade se constrói sobre a base da lógica digital.
Há
alguns aspectos relevantes para sua compreensão: a forma como opera, quem
manda, como se financia, as cadeias de lealdade, como se mobiliza, articula
seguidores e engajamento nas redes, como se insere na arena eleitoral (tanto
nas disputas eleitorais como na atuação no parlamento dos eleitos com seu apoio)
e as hierarquias internas.
Em
relação à participação eleitoral, há um capítulo no qual se analisa como o
partido digital atua na arena eleitoral, e examina a sua aliança com o PL (com
a incorporação do PL ao bolsonarismo) nas eleições municipais de 2024 e, entre
outros aspectos, foi feito um levantamento de dados de investimentos de
campanha digital e também na sua atuação na Câmara dos Deputados (há uma lista com os nomes de parlamentares,
com perfis distintos, alguns do Centrão, dados eleitorais, comportamento nas redes sociais, etc.).
Como
afirmam os autores, o partido digital bolsonarista "hackeia o PL e o tem como caminho prioritário para entrar nas
instituições parlamentares e eleitorais", e o PL se tornou o partido preferencial, mobilizando e
organizando o ecossistema bolsonarista.
Um
aspecto importante salientado no livro é quanto à baixa (ou ausência de) regulação
das plataformas digitais, que possibilita que esse partido utilize a
infraestrutura de empresas privadas, (ainda) sem leis que obriguem a
transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, e
nesse sentido, com uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à
fiscalização do Estado.
A
questão central, especialmente nas eleições de outubro é saber qual o seu papel
de fato, do poder e sua influência na decisão do voto, com seus seguidores nas
redes, mobilizados e alimentados constantemente,
inclusive com desinformação. Enfim, como nova forma organizativa na política
brasileira, que se caracteriza por usar os meios digitais de mobilização e
comunicação, atua nas eleições como ameaça para a própria democracia.