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Manipulação digital e o futuro da democracia: o que está em jogo nas eleições
Não se trata apenas de manipular o resultado
eleitoral, num mundo dominado por gigantescas plataformas tecnológicas
transnacionais; uma questão central é o de compreender a sua capacidade de corroer a própria democracia
Com a aproximação da eleição que pode definir os rumos do país nos próximos quatro anos, uma questão relevante é o de saber que impactos ela terá para a democracia. Mesmo com todos os seus problemas, a democracia permanecerá, ou uma eventual vitória da extrema direita significará mais um retrocesso, que tem caracterizado alguns momentos da história política do país, entre ditaduras e governos populistas de direita?
Nesse sentido, o que se precisa fazer para salvar a democracia, enfrentar as fake news, manipulações, hackes, milícias digitais e o controle monopolístico das informações?
Com o avanço da tecnologia e da capacidade de manipular a vontade do eleitor, usa-se uma linguagem habilmente formulada, que se viraliza nas redes sociais e tem evidentes impactos eleitorais.
Mas não se trata apenas de manipular o resultado eleitoral, num mundo dominado por gigantescas plataformas tecnológicas transnacionais; uma questão central é o de compreender a sua capacidade de corroer a própria democracia.
Governos autoritários podem não apenas ser eleitos com o apoio das big techs - usando estratégias de manipulação - como, uma vez no poder, usá-las para se manterem. Daí a importância de se analisar as formas como os representantes são eleitos, quem são (muitos com base em fartos recursos financeiros, nem sempre lícitos), e um grande arsenal de mentiras, fake news e manipulação que minam a legitimidade dos processos democráticos.
Em relação ao poder decisivo das big techs e tecnologias nas eleições, o jornalista e professor da King's College London, Martin Moore, no livro Democracia hackeada: como as tecnologias estão destabilizando a política mundial, alerta para os perigos de se constituir o que chama de Estados de Vigilância, nos quais, através de uso das plataformas digitais, não apenas se elegem mentirosos e autoritários que atentam contra a democracia, como, em seus governos, se reprime os opositores, monitora-se e controla-se os cidadãos.
Em outro livro, Democracia manipulada: a explicação por detrás das fake news, do Bretix em Inglaterra, Donald Trump nos Estados Unidos, Macron em França, ou do Movimento Cinco Estrelas em Itália de (Editora Self, Carcavelos, Portugal, 2019), Martin Moore busca compreender como o Facebook, Google e Twitter foram usados por empresas de consultoria política que influenciam decisivamente eleições.
Em ambos, analisando o que chama de um mundo de vigilância em tempo real, mostra como ,com acesso a dados pessoais, analisados com o uso de sofisticada tecnologia, não apenas se distorce o processo eleitoral, como se coloca em xeque a própria democracia, a liberdade e a privacidade.
N artigo Big Data: Toda democracia será manipulada? Publicado no site outras palavras, Mikael Krogerus e Hannes Grassegger analisam a capacidade e possibilidade de manipulação das big techs.O que eles pretendem mostrar, entre outros aspectos relevantes, é o que está por trás do Big Data, no qual "em essência, tudo o que fazemos, seja on ou offline, deixa traços digitais. Cada compra que fazemos com nossos cartões, cada busca que fazemos no Google, cada movimento que fazemos com nosso celular no bolso, cada 'like' é armazenada. Especialmente cada 'curtida'".
O objetivo é mostrar como uma empresa de Big Data fez e pode fazer, inclusive em eleições, e um dos exemplos citados é o da Cambridge Analytica, que na eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos usou os dados de milhões pessoas para beneficiar a candidatura (vitoriosa ) de Donald Trump (detalhes sobre esse processo estão no livro Manipulados: como a Cambridge analytica e o facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque, Editora Harper Collins, 2019, de Brittany Kaiser- que trabalhou na Cambridge Analytica por três anos e meio e conhecendo a empresa, e suas estratégias por dentro).
Krogerus e Grassegger destacam, como importante nesse processo, o uso da psicometria. Segundo os autores, na década de 1980 "duas equipes de psicólogos desenvolveram um modelo que buscava avaliar os seres humanos com base em cinco traços de personalidade, conhecidos como os "Cinco Grandes" , que tornaram-se a técnica padrão da psicometria: abertura (o quão aberto você está para novas experiências?), conscenciosidade (quão perfeccionista você é?), extroversão (quão sociável?), afabilidade (quão atencioso e cooperativo?) e neuroticidade (você se aborrece facilmente?).
Com base nessas dimensões, podia-se fazer uma avaliação relativamente precisa do tipo de pessoa, que incluíam suas necessidades e medos, e como ela tende a se comportar.
Naquele momento, o problema era a coleta de dados, porque necessitava do preenchimento de um questionário, mas isso mudou totalmente com o surgimento e o desenvolvimento da Internet e depois com os dados disponibilizados (voluntariamente) pelas pessoas nas redes sociais e, mais recentemente, com o uso de inteligência artificial.
Kosinski - PhD na Universidade de Cambridge no Centro de Psicometria - criou um aplicativo para Facebook (MyPersonality) que possibilitou aos usuários preencher diversos questionários psicométricos e, com base na avaliação, receber um "perfil de personalidade". Embora a expectativa fosse de que apenas algumas dezenas de amigos e colegas preenchessem os questionários, afirma que , para a sua surpresa, "centenas, milhares e depois milhões de pessoas revelaram suas mais profundas convicções".
E assim ter "o maior conjunto de dados com pontuações psicométricas abrangentes com perfis do Facebook jamais coletados".
E o modelo foi se refinando a cada eleição. Por exemplo, com base em dados disponibilizados pelos usuários e 'curtidas' no Facebook, era possível descobrir desde a cor da pele (com 95% de probabilidade de acerto), sua orientação sexual (88%) e sua filiação partidária, religiosa, assim como uso de álcool, fumo ou droga. Ou seja, tudo podia ser determinado usando as informações dos próprios usuários.
Essencialmente, o que Kosinki criou foi um mecanismo de busca de pessoas com base nas informações que elas mesmas forneciam espontaneamente. Posteriormente, passou a incluir também o smartphone: "um vasto questionário psicológico que estamos preenchendo constantemente, tanto consciente quanto inconscientemente".
Não há informações públicas sobre o uso de dados dos usuários nos aplicativos e base de dados das big techs, mas, com base nos estudos e pesquisas anteriores, em outros países, é possível que também esteja sendo utilizado no Brasil, ampliado com o uso de inteligência artificial.
Nesse sentido, há a necessidade de não apenas ter uma regulação do uso de dados das pessoas pelas big tech, como a construção de espaços cívicos digitais e serviços públicos que não se baseiem no rastreamento de dados pessoais, garantindo a todos o direito à privacidade.
Essencialmente, trata-se de ampliar os espaços democráticos, evitar que as grandes empresas de tecnologias usem impunemente pesquisas e dados de milhões de pessoas para influenciar e decidir eleições.
*Homero de Oliveira Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR).
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