Ao investigar as raízes do problema, torna-se evidente que a agressão não nasce do vazio, mas sim de uma convergência complexa de fatores individuais, relacionais e estruturais
'Apagão de professores' se combate apagando maus políticos nas urnas e nas ruas
A raiz do 'apagão' não nasce apenas na escola, causada por indisciplina dos alunos e outros problemas comuns aos estabelecimentos de ensino, como muitos acreditam
> Educação

*Célia C Medeiros, às 08:10
Em quase dez anos de mandato, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) — foragido nos EUA — apresentou apenas um projeto relativo à educação: obrigar docentes das escolas públicas a fazer periodicamente exame toxicológico para saber se os educadores são usuários de drogas como crack, cocaína e outras. Medida foi rejeitada após intervenção de parlamentares de esquerda. O irmão de Eduardo, Flávio Bolsonaro (PL), ora candidato a Presidente da República, já anunciou que se eleito fará nova Reforma da Previdência para acabar a aposentadoria especial dos professores e elevar idade mínima para 67 anos, homens e mulheres.
É por conta de medidas de políticos como essa dupla que há um "apagão" de professores no Brasil. Muitos abandonam as escolas e, segundo estudiosos no assunto, jovens estão cada vez desanimados com a ideia de ingressar no magistério.
A raiz desse 'apagão', portanto, não nasce apenas na escola, causado por indisciplina dos alunos e outros problemas comuns aos estabelecimentos de ensino, como muitos acreditam: esse 'apagão' nasce mesmo é nos gabinetes refrigerados, nos projetos de prefeitos, governadores e parlamentares contra a categoria, sobretudo quando se trata de políticos de direita (como Eduardo e Flávio), que tratam a educação como gasto e não como investimento.
O desânimo que corrói tantos colegas não é preguiça, nem falta de vocação. É o resultado direto de decisões políticas ruins: negação de pagar piso do magistério, planos de carreira desmontados, metas absurdas no dia a dia, cortes em formação continuada, escolas sucateadas. Cada projeto irresponsável aprovado em plenário é mais um tijolo no muro que afasta bons profissionais das escolas públicas.
Enquanto se fala em "apagão de professores" como se fosse um fenômeno natural, quase ninguém tem coragem de dizer que o verdadeiro apagão deveria acontecer nas urnas: um apagão de maus políticos, de gestores que nunca pisaram em escola pública mas aparecem toda eleição como defensores desse setor. Esse pessoal não merece o voto de nenhum profissional do magistério. Na mesma linha, é preciso apagar todos esses maus políticos nas ruas, através de manifestações, greves e outros instrumentos de pressão.
Outra questão relevante nesse debate é que nenhum professor deve desistir da profissão. A desistência é exatamente o que esses maus políticos esperam: uma categoria enfraquecida, desmobilizada, silenciosa. Permanecer, resistir, organizar-se em sindicatos e coletivos, denunciar abusos e defender a escola pública é uma forma concreta e eficaz de reagir ao desânimo que ora toma conta do magistério.
Por fim, reiteramos: o apagão que o Brasil precisa não é o de professores, é o de projetos medíocres e de governantes que tratam a educação como moeda de troca. Quando a sociedade entender o valor de quem ensina, e quando as urnas e as ruas forem usadas para apagar da vida pública quem destrói a escola, o país poderá, enfim, apagar esse fantasma do 'apagão' de professores.
*Célia Medeiros é professora e segue o Dever de Classe
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