Após anos dedicados ao estudo e ao aprimoramento da minha prática pedagógica, cheguei a um ponto de inflexão: a permanência na sala de aula, hoje, parece um exercício contínuo de enxugar gelo
O limite da resistência: por que decidi abandonar a sala de aula
Após anos dedicados ao estudo e ao aprimoramento da minha prática pedagógica, cheguei a um ponto de inflexão: a permanência na sala de aula, hoje, parece um exercício contínuo de enxugar gelo
> Educação

*Lúcio Mendes, às 17:18
Não tomei essa decisão no calor de uma discussão ou sob o impacto de um dia particularmente caótico. A ideia de abandonar a docência maturou lentamente, alimentada pela constatação diária e matemática de que o ambiente escolar tornou-se, em grande medida, refratário ao ato de ensinar. Após anos dedicados ao estudo e ao aprimoramento da minha prática pedagógica, cheguei a um ponto de inflexão: a permanência na sala de aula, hoje, parece um exercício contínuo de enxugar gelo.

O obstáculo central não é a complexidade dos conteúdos ou a escassez de recursos materiais, mas a indisciplina crônica que fragmenta o tempo letivo. Entro na sala preparado para mediar o conhecimento, para provocar a reflexão crítica e transmitir a matéria que levei anos para dominar. No entanto, o tempo real é consumido por uma batalha de atrito constante contra a dispersão, o uso irrestrito de celulares, a apatia e o desrespeito sistemático às regras mínimas de convivência.
A sensação dominante é a de uma profunda impotência. Sentir-se incapaz de lecionar aquilo que se aprendeu não é apenas uma frustração pessoal, mas o sinal da falência da função docente. O professor foi progressivamente deslocado de seu papel de educador para o de inspetor de comportamento — uma tarefa para a qual a formação acadêmica de nada serve. Quando mais da metade do tempo de uma aula é gasta na tentativa de obter um silêncio funcional, a própria razão de existir da disciplina é anulada.
A romantização do "professor herói" fez um mal imenso à nossa categoria. A docência é uma profissão, não um voto de martírio. Reconhecer o próprio limite psíquico e profissional não é um ato de covardia, mas de lucidez. Não é sustentável permanecer em um sistema onde a autoridade pedagógica foi esvaziada e onde o desgaste emocional se tornou o preço padrão para se cumprir a jornada de trabalho.
Aos colegas que permanecem na linha de frente, meu posicionamento não vem revestido de sentimentalismo barato, mas de um profundo respeito pela tarefa que desempenham: não desistam. A minha decisão de sair reflete o alcance do meu limite individual, e não a inutilidade da causa. O trabalho de vocês continua sendo a única barreira contra a degradação cultural e social de uma geração.
Para continuar, no entanto, é preciso abandonar a ilusão de que o amor pela profissão compensa a falta de estrutura e de respaldo. Protejam sua saúde mental, exijam limites institucionais claros e não aceitem o desgaste físico e emocional como parte natural do ofício. Eu me afasto não por desacreditar no valor da educação, mas por reconhecer que o custo de permanecer inviabilizou a minha capacidade de ensinar. Que o meu abandono sirva não como um convite ao desânimo, mas como um alerta sóbrio sobre o limite suportável de quem escolheu educar.
*Lúcio Mendes é nome fictício. O docente não quis expor nome e imagem na publicação.
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