Chorar as pitangas dá alívio imediato, mas não dá reajuste, não reforma telhado e não impõe respeito pedagógico. O que os governos temem é o professor e a professora que se levantam, não os que choramingam pelos cantos
Por que o(a) professor(a) precisa trocar o choro pela luta
Chorar as pitangas dá alívio imediato, mas não dá reajuste, não reforma telhado e não impõe respeito pedagógico. O que os governos temem é o professor e a professora que se levantam, não os que choramingam pelos cantos
> Educação

*Glória Cunha, às 12:27
Quem vive a realidade do chão da escola pública sabe de cor o roteiro: a primeira aula começa com o cansaço acumulado, o contracheque que não paga o esforço do mês, a indisciplina que testa nossa sanidade e a infraestrutura que parece desabar a cada temporal. Os problemas estão aí, são reais, pesados e covardes. Não há romantismo que os esconda.

O que começa a me dar um nó na garganta, no entanto, não é só a dureza da profissão — é a nossa reação coletiva a ela.
Vire e mexe, a sala dos professores vira um grande grupo de autoajuda onde a especialidade máxima parece ser a arte de constatar o óbvio. "Olha esse salário", "Esses meninos não respeitam mais nada", "Não aguento mais, vou pedir exoneração". A ameaça de abandonar a sala de aula ecoa todo semestre como um mantra do desespero. Mas o sinal bate, a aula começa, o mês vira, e lá estamos nós de novo: resignados, cabisbaixos e consumidos por uma amargura mansa que não muda uma vírgula da nossa realidade.
"Ficar lamentando a sorte ou despejando frustração entre um café e outro na sala dos professores não move um milímetro de asfalto. É energia gasta no lugar errado."
Chorar as pitangas dá alívio imediato, mas não dá reajuste, não reforma telhado e não impõe respeito pedagógico. Pior: cria uma atmosfera de derrota antecipada. Quando a gente aceita o papel de coitado antes mesmo de tentar reagir, o sistema vence por W.O. O administrador público, o político de plantão e o gestor insensível adoram o professor que apenas suspira. Por outro lado, o que todos eles temem é o professor e a professora que se levantam, não os que choramingam pelos cantos.
E levantar a cabeça não é fazer discursos piegas sobre "amor à camisa" — que já nos exploraram demais com essa conversa. Altivez não é aceitar desaforo sorrindo; é olhar para o problema com a dureza de quem sabe o tamanho do seu valor.
Se o salário é indecente, a resposta não é engolir seco e choramingar no corredor: é somar força onde a força realmente mora — no sindicato.
Sindicato não é clube social, não é palanque vazio e não é órgão decorativo. É ferramenta de enfrentamento. É ali que a queixa individual vira pauta coletiva, que o sussurro vira grito e que a insatisfação dispersa vira pressão real sobre quem caneta o orçamento. Enquanto a gente tratar a organização sindical com desdém ou preguiça, continuaremos sendo tratados como mão de obra barata de um Estado que aposta no nosso cansaço.
Os problemas vão continuar batendo na porta da escola amanhã cedo. A escolha é diária: ou a gente continua ensaiando o papel de vítima resignada, ou assume o tamanho histórico da nossa função e encara a crise com a cabeça erguida e o punho organizado.
Choro não pauta projeto de lei. Luta, sim.
*Glória Cunha é pedagoga e segue o Dever de Classe
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