O que está por trás da violência de estudantes contra professores?

30/09/2026

Ao investigar as raízes do problema, torna-se evidente que a agressão não nasce do vazio, mas sim de uma convergência complexa de fatores individuais, relacionais e estruturais 

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A metamorfose do afeto em hostilidade no ambiente escolar

O fenômeno da violência extrema contra educadores, que culmina na aterradora percepção do professor como um inimigo a ser exterminado, representa uma das fraturas mais dolorosas da sociedade contemporânea. Longe de ser um evento isolado ou fruto de um impulso irrefletido, essa dinâmica destrutiva exige um olhar analítico que ultrapasse julgamentos morais apressados. Ao investigar as raízes do problema, torna-se evidente que a agressão não nasce do vazio, mas sim de uma convergência complexa de fatores individuais, relacionais e estruturais. Compreender essa arquitetura do ódio e a desconexão empática é o primeiro passo para conter a tragédia antes que ela se materialize nos corredores das escolas.

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No âmbito da psicologia individual do estudante, o ressentimento e a inabilidade de lidar com frustrações ocupam um papel central. O psicólogo Yves de La Taille argumenta que o desenvolvimento moral e ético depende da capacidade do indivíduo de reconhecer a alteridade e respeitar limites institucionais. No entanto, quando um jovem vivencia um quadro de profundo isolamento psíquico, fragilidade narcísica e exposição contínua a conteúdos extremistas, ele passa a projetar no docente a causa de seus fracassos e dores. segundo os conceitos da psicanálise de Sigmund Freud, opera-se aí um mecanismo de deslocamento e projeção, no qual a figura docente deixa de ser vista como um agente de mediação do saber e passa a ser internalizada como a corporificação de um perseguidor invisível.

Ao examinar o papel do professor e da instituição escolar, percebe-se que o docente raramente é o gerador direto do conflito, mas sim a vítima de um colapso simbólico. A filósofa Hannah Arendt, ao analisar a crise da autoridade na educação moderna, apontou como o esvaziamento do prestígio dos educadores compromete a mediação entre o mundo adulto e as novas gerações. O especialista em violência escolar Eric Debarbieux destaca que o professor atua na linha de frente de um sistema desgastado, tornando-se um bode expiatório acessível para o descontentamento do aluno. Quando o vínculo pedagógico é rompido por falhas na escuta e pela sobrecarga de demandas, a relação humana se desumaniza, transformando a autoridade legítima em uma imagem caricata de tirania contra a qual o estudante julga ser necessário se rebelar.

Por fim, o sistema geral em que alunos e professores estão imersos funciona como o terreno onde a violência se gesta e ganha força. O educador Paulo Freire já alertava para os perigos de uma educação alienante e desprovida de diálogo humano, contexto que se agrava hoje pela mediação digital sem regulação. Em ambientes virtuais de extremismo, a figura do professor é sistematicamente demonizada por discursos de ódio que estimulam o desprezo pelo conhecimento e a glamorização de atos violentos. Dessa forma, a omissão das políticas públicas de saúde mental, a precarização das redes de apoio familiar e o desmantelamento da convivência democrática criam um ambiente tóxico onde impulsos autodestrutivos e homicidas se alimentam mutuamente.

Em síntese, enxergar o professor como um inimigo a ser combatido é o sintoma trágico de um colapso que atravessa o indivíduo, a escola e a sociedade. Atribuir a responsabilidade exclusivamente ao aluno ou ao professor simplifica perigosamente uma crise de raízes psíquicas e culturais profundas. Para reverter esse cenário, é imprescindível investir no acolhimento emocional dos estudantes, no fortalecimento da segurança institucional e na recomposição da dignidade da função docente. Somente por meio de um esforço coletivo focado na empatia, no diálogo interpessoal e na prevenção contínua será possível restaurar a escola como um espaço seguro de transformação e vida.

*Luíza P Alencar é pedagoga, especialista em Educação Infantil e segue o Dever de Classe. Foto é meramente ilustrativa, a articulista não enviou imagem para exposição.

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