O dilema das redes e a regulação das plataformas digitais

14/08/2026

Documentário sobre essas temáticas mostra como as redes sociais não apenas manipulam os usuários — e lucram com isso — mas destaca principalmente as consequências sociais na vida de toda a população

Por *Homero Costa, às 07:01

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Prof. Dr. Homero Costa / Em setembro de 2020, a Netflix lançou no Brasil o documentário O dilema das redes (título original The Social Dilemma), exibido em diversos festivais de cinema e vencedor de vários prêmios internacionais. A produção se tornou uma referência no debate sobre o impacto das redes sociais digitais na sociedade contemporânea, ajudando a refletir sobre o papel de plataformas como Facebook, Instagram, Twitter (hoje X) e outras, inclusive em processos eleitorais. Essa discussão ganha ainda mais relevância no contexto brasileiro, especialmente com o início da propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet, além do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.

Dirigido por Jeff Orlowski, com roteiro assinado por ele e por Davis Coombe, o documentário reúne depoimentos de ex-funcionários e especialistas em tecnologia de grandes plataformas digitais, como Google, Facebook e Twitter (atual X). Esses relatos de bastidores ajudam a compreender o funcionamento dos algoritmos, os modelos de negócios baseados em dados e a lógica de vigilância e monetização que estrutura as principais redes sociais.

Entre os entrevistados estão nomes de destaque no debate sobre tecnologia, democracia e saúde mental: Jaron Lanier, autor do livro Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais (Editora Intrínseca, 2018); Tim Kendal, ex-diretor de monetização do Facebook; Jonathan Haidt, psicólogo e autor, entre outros, de A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais (Editora Companhia das Letras, 2024); Ashton Kutcher; Jaron Lanier; Aza Raskin (ex-funcionário da Mozilla); Cathy O'Neil, autora de Algoritmos de destruição em massa: como o big data aumenta a desigualdade e ameaça a democracia (Editora Rua do Sabão, 2020); e Shoshana Zuboff, autora de A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder (Editora Intrínseca, 2021). As obras citadas aprofundam temas centrais do filme, como big data, capitalismo de vigilância, manipulação algorítmica e riscos à democracia.

O documentário intercala esses depoimentos com cenas ficcionais, nas quais atores interpretam situações do cotidiano de um jovem usuário de redes sociais e de sua família. Nessas sequências, são abordados o uso excessivo de celulares, a dependência das notificações, os efeitos psicológicos da hiperconexão e a tentativa de realizar uma refeição em família sem a presença ou o acesso aos aparelhos, evidenciando os conflitos e tensões gerados pela centralidade das telas na vida diária.

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Um dos principais objetivos do documentário é analisar, em profundidade, os perigos e as consequências do uso excessivo das redes sociais. A produção tornou-se também uma das referências para a criação de legislação em diversos países, ajudando a estabelecer limites de uso, especialmente entre crianças e adolescentes, além de inspirar normas voltadas à preservação da privacidade e proteção de dados pessoais.

O documentário mostra como as redes sociais não apenas manipulam os usuários — e lucram com isso — mas destaca principalmente as consequências sociais desse modelo de negócio, os impactos na saúde mental relacionados à dependência digital (uso excessivo), bem como os efeitos nos relacionamentos pessoais, nas famílias e na convivência em sociedade.

Um aspecto importante não é apenas a crítica às redes sociais, mas a busca de soluções concretas, de conscientização e de educação digital, além da defesa da necessidade de regulação das plataformas digitais, em especial no acesso de crianças e adolescentes, como já ocorre em diversos países. Entre eles, a Austrália, que em dezembro de 2025 se tornou o primeiro país a proibir que menores de 16 anos acessem as redes sociais; a Alemanha (menores entre 13 e 16 anos podem usar, mas somente com o consentimento dos pais); Suécia, Espanha, França, Alemanha e outros países da União Europeia, Reino Unido (em 2016, um referendo aprovou o Brexit, início da saída do Reino Unido da União Europeia, formalizado em 2020) e Etiópia, todos com a compreensão de que esse processo de regulação não deve ser conduzido pelas próprias plataformas.

Em abril de 2024, a Coalizão Direitos na Rede publicou um relatório sobre regulação de plataformas digitais, analisando leis de 71 países e abordando, entre outros pontos, a imputação de responsabilidade dos provedores pelos danos causados por conteúdos gerados por terceiros, a obrigação de remoção de conteúdos ilegais, o aumento da transparência nas decisões das plataformas e na gestão dos dados dos usuários.

No Brasil, em setembro de 2025, foi aprovada a Lei 15.211, conhecida como ECA Digital (Estatuto da Criança e do Adolescente na era digital), com regras de proteção a crianças e adolescentes no ambiente online. A lei não determina um limite de idade para acesso às redes sociais, mas estabelece que perfis de usuários com até 16 anos devem estar vinculados à conta de um de seus responsáveis legais, reforçando a responsabilidade e o acompanhamento familiar.

No documentário O dilema das redes, enfatiza-se a necessidade de responsabilização das plataformas digitais e de proteção da democracia. São citados, por exemplo, casos de articulações de grupos neonazistas pelas redes sociais, como ocorreu recentemente no Brasil, com planos de colocar uma bomba no Palácio do Planalto e de realizar um atentado contra o presidente Lula, episódio que também teve desdobramentos em dezembro de 2022. Defende-se ainda a lisura das eleições, o combate às fake news e às mentiras disseminadas em massa, bem como a garantia da privacidade digital e da proteção dos usuários.

Um dos participantes do documentário é Tristan Harris, especialista em ética e tecnologia, ex-designer do Google e posteriormente diretor executivo e fundador do Center for Humane Technology. Ele demonstra como as redes sociais afetam não apenas a percepção das pessoas, mas explica de que forma isso é feito: com o uso de especialistas em psicologia humana para estimular o vício, maximizar o lucro das empresas e manipular opiniões e comportamentos. Segundo ele, tudo o que já foi feito online — todos os cliques, os vídeos assistidos, o que é postado ou recebido — alimenta um modelo capaz de prever padrões de comportamento dos usuários.

Ele se refere a uma técnica chamada de reforço positivo intermitente, usada para controlar o comportamento dos usuários, explorar vulnerabilidades emocionais e transformar tecnologia em vício. Essa estratégia cria dependência, mantém a atenção constante e engaja os usuários o máximo possível por meio de algoritmos, com o objetivo de maximizar o lucro, monitorando acessos, cliques, curtidas e compartilhamentos.

Um aspecto relevante é o que, na psicologia, se chama de viés de confirmação, em que pessoas ficam presas em suas bolhas digitais e deixam de ter acesso a informações diferentes das suas. Dessa forma, o conteúdo que recebem — e que também ajudam a compartilhar — reforça suas crenças, amplia o alcance de desinformação e aprofunda a polarização.


*Homero Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR).


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