O papel do medo em eleições

28/08/2026
O artigo explica que o "o tema do medo está presente na análise de muitos pensadores da política, desde pelo menos o século XVI"

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Prof. Dr. Homero Costa / O tema do medo está presente na análise de muitos pensadores da política, desde pelo menos o século XVI, com destaque para Nicolau Maquiavel, na obra o Príncipe (1513) e, no século seguinte, com Thomas Hobbes, no Leviatã (1651). Para Maquiavel, o medo tem um papel fundamental na sociedade e na política em particular. O medo produz uma aparente sensação de segurança por quem se sente protegido.


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Thomas Hobbes, em sua obra clássica, parte do princípio que os homens no seu estado de natureza, têm um direito natural que é o direito à vida. Esse direito à vida pressupõe o uso de todos os meios necessários para a sua concretização, mas os homens são naturalmente egoístas: "O homem é o lobo do próprio homem" é um de suas frases mais conhecidas.

E o medo é próprio do que ele chama de estado de guerra, com a compreensão de que se não tiver algo que possa impedi-lo, as pessoas viverão como no "estado de natureza", sempre em conflito, em constante insegurança. Para que tenha segurança é necessário que haja um pacto, um estado que possa garantir a segurança e a paz, transferindo o seu direito natural e esse estado passa a ter o monopólio da força, com a justificativa de que o faz para garantir esse direito.

Como diversos analistas, não apenas do Leviatã, mas também de outras obras dele argumentam, o que ele propõe é a criação de um Estado Absolutista no qual o soberano deve punir aqueles que não se comportam segundo as leis que, em princípio, deve proteger a todos e promover a paz. 

Renato Janine Ribeiro professor de Ética e Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), especialista de Thomas Hobbes e autor dos livros A marca do leviatã (1973) e ao "Ao leitor sem medo – Hobbes escrevendo sobre o seu tempo (1999), ao analisar o Leviatã, afirma que terror existe no estado de natureza quando "vivo no pavor de que meu suposto amigo me mate"". Já o poder soberano "apenas mantém temerosos os súditos, que agora conhecem as linhas gerais do que devem seguir para não incorrer na ira do governante (...) o indivíduo bem comportado dificilmente terá problemas com o soberano".

Está subjacente a concepção segundo a qual esse estado é resultado de um contrato, da adesão voluntária dos indivíduos, e que possa garantir a todos segurança e uma vida melhor: "Quando se estabelece como convenção submeter-se a um corpo político (Estado), renuncia-se a liberdade, característica do estado de natureza, para se ter segurança e paz".

Ao defender isso é preciso considerar o contexto em que Thomas Hobbes viveu: de guerras e intolerâncias religiosas (há publicada uma extensa bibliografia sobre esse tema) e o fato é que ao longo da história, o medo associada o uso da violência em defesa dos interesses e privilégios das classes dominantes, sempre foi utilizado como estratégia política e manutenção do poder, como tem feito os ditadores ao longo do tempo e a extrema direita neste e no século passado, com o nazifascismo e outras formas de ditaduras (militares, civis, civis-militares).

O objetivo é o de instalar o medo com o uso de mecanismos de manipulação, cada vez mais sofisticados com o desenvolvimento tecnológico e uma de suas estratégias, muito eficaz, ao infundir medo é sempre apontar os culpados (os outros, adversários ou inimigos políticos) e se apresentar como solução.

E tem sido muito usado em campanhas eleitorais e todas as experiências dos que ganharam eleições usando o medo ou governaram sob ditaduras ou foram governos de farsantes, eleitos com base na mentira e que só tiveram sucesso eleitoral porque souberam fazer promessas genéricas e irrealizáveis, e conseguiram responder de forma que parecia satisfatória aos que se sentiam ameaçados pela difusão do medo.

Num artigo publicado em 2004, Vera Chaia, cientista política e professora da PUC/SP, mostra como a estratégia política de se criar um clima de medo foi utilizada para combater a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva desde a eleição presidencial de 1989.

Ela analisa a propaganda eleitoral, depoimentos de atores políticos e a imprensa escrita nos períodos eleitorais de 1989, 1994, 1998 e 2002. O foco central foi à cobertura jornalística das eleições, destacando o tema do medo.

Sua hipótese foi a de que o medo foi a "estratégia de persuasão" utilizada para convencer o eleitorado a votar contra Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que "o medo pode ser fabricado e produzido por um sistema político e/ou criado para estimular e impulsionar a obediência dos cidadãos em determinadas sociedades".

E destaca o papel central da mídia "enquanto produtora de conhecimentos e geradora de construções sociais que trabalham com a ideia do medo e constroem representações sociais que estimulam este sentimento".

Na eleição de 2002 o slogan da campanha de Lula foi justamente "A esperança vence o medo". Naquele momento estava em vigência o Plano Real e o discurso predominante na grande mídia era o de que havia a necessidade de se preservar a estabilidade e o controle da inflação e Lula não tinha experiência administrativa e o PT era um partido radical e sem condições de governar o país.

E é essa mídia hegemônica, cuja cobertura das eleições presidenciais de outubro de 2026, repete às anteriores, com o antipetismo, que tem sido usado por seus adversários (na eleição de 1989), Fernando Collor, entre outras mentiras, afirmou no Horário de Propaganda Eleitoral, que caso Lula vencesse as eleições ele iria confiscar a poupança, gerando um clima de temor por parte dos eleitores (farsante, quem fez isso foi ele, quando venceu a eleição).

Ocorre que a eficácia da estratégia política do medo em 2002, 2006 e que se repetiu na campanha eleitoral de 2022 contra Lula e o PT se revelou um fracasso ou não surtiu o efeito desejado porque Lula, apesar da (grande) mídia e da difusão do medo, das mentiras e fake news, venceu a eleição.

O problema é tanto na mídia hegemônica como no ecossistema da extrema direita, no qual a desinformação tem um papel relevante, não possibilita uma discussão programática para que os eleitores tenham a possibilidade de avaliar a consistência dos programas e o preparo dos próprios candidatos.

Ao focar no medo, na violência e insegurança, por exemplo, não apresenta uma proposta consistente nesse sentido e muito menos programas viáveis para outras áreas (educação, ciência e tecnologia, meio ambiente, cultura, saúde etc.) e mesmo em relação à segurança pública não apresenta alternativas, a não ser generalidades e mais violência para combater... a violência. E que se associa a uma estratégia de descrença nas instituições, que pode seduzir uma parcela do eleitorado, mas que, espera-se, não seja fundamental na decisão do voto da maioria dos eleitores



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