Renato
Janine Ribeiro professor de
Ética e Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), especialista de Thomas
Hobbes e autor dos livros A marca do
leviatã (1973) e ao "Ao leitor sem
medo – Hobbes escrevendo sobre o seu tempo (1999), ao analisar o Leviatã,
afirma que terror existe no estado de
natureza quando "vivo no pavor de que meu suposto amigo me mate"". Já o poder
soberano "apenas mantém temerosos os súditos, que agora conhecem as linhas
gerais do que devem seguir para não incorrer na ira do governante (...) o
indivíduo bem comportado dificilmente terá problemas com o soberano".
Está
subjacente a concepção segundo a qual esse estado é resultado de
um contrato, da adesão voluntária dos indivíduos, e que possa garantir a todos
segurança e uma vida melhor: "Quando se estabelece como convenção submeter-se a
um corpo político (Estado), renuncia-se a liberdade, característica do estado
de natureza, para se ter segurança e paz".
Ao defender isso
é preciso considerar o contexto em que Thomas Hobbes viveu: de guerras e
intolerâncias religiosas (há publicada uma extensa bibliografia sobre esse tema)
e o fato é que ao longo da história, o medo associada o uso da violência em
defesa dos interesses e privilégios das classes dominantes, sempre foi
utilizado como estratégia política e manutenção do poder, como tem feito os
ditadores ao longo do tempo e a extrema direita neste e no século passado, com
o nazifascismo e outras formas de ditaduras (militares, civis, civis-militares).
O objetivo é o
de instalar o medo com o uso de mecanismos de manipulação, cada vez mais
sofisticados com o desenvolvimento tecnológico e uma de suas estratégias, muito
eficaz, ao infundir medo é sempre apontar os culpados (os outros, adversários ou
inimigos políticos) e se apresentar como solução.
E tem sido muito usado em campanhas
eleitorais e todas as experiências dos que ganharam eleições usando o medo ou
governaram sob ditaduras ou foram governos de farsantes, eleitos com base na
mentira e que só tiveram sucesso eleitoral porque souberam fazer promessas genéricas
e irrealizáveis, e conseguiram responder de forma que parecia satisfatória aos
que se sentiam ameaçados pela difusão do medo.
Num artigo publicado
em 2004, Vera Chaia, cientista política e professora da PUC/SP, mostra como a
estratégia política de se criar um clima de medo foi utilizada para combater a
candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva desde a eleição presidencial de 1989.
Ela analisa a
propaganda eleitoral, depoimentos de atores políticos e a imprensa escrita nos
períodos eleitorais de 1989, 1994, 1998 e 2002. O foco central foi à cobertura
jornalística das eleições, destacando o tema do medo.
Sua hipótese foi
a de que o medo foi a "estratégia de persuasão" utilizada para convencer o
eleitorado a votar contra Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que "o medo pode
ser fabricado e produzido por um sistema político e/ou criado para estimular e
impulsionar a obediência dos cidadãos em determinadas sociedades".
E destaca o papel central da mídia "enquanto produtora de
conhecimentos e geradora de construções sociais que trabalham com a ideia do
medo e constroem representações sociais que estimulam este sentimento".
Na
eleição de 2002 o slogan da campanha de Lula foi justamente "A esperança vence
o medo". Naquele momento estava em vigência o Plano Real e o discurso
predominante na grande mídia era o de que havia a necessidade de se preservar a
estabilidade e o controle da inflação e Lula não tinha experiência
administrativa e o PT era um partido radical e sem condições de governar o
país.
E
é essa mídia hegemônica, cuja cobertura das eleições presidenciais de outubro
de 2026, repete às anteriores, com o antipetismo, que tem sido usado por seus
adversários (na eleição de 1989), Fernando Collor, entre outras mentiras, afirmou
no Horário de Propaganda Eleitoral, que caso Lula vencesse as eleições ele iria
confiscar a poupança, gerando um clima de temor por parte dos eleitores (farsante,
quem fez isso foi ele, quando venceu a eleição).
Ocorre
que a eficácia da estratégia política do medo em 2002, 2006 e que se repetiu na
campanha eleitoral de 2022 contra Lula e o PT se revelou um fracasso ou não
surtiu o efeito desejado porque Lula, apesar da (grande) mídia e da difusão do
medo, das mentiras e fake news, venceu a eleição.
O problema é tanto na mídia hegemônica
como no ecossistema da extrema direita, no qual a desinformação tem um papel
relevante, não possibilita uma discussão programática para
que os eleitores tenham a possibilidade de avaliar a consistência dos programas
e o preparo dos próprios candidatos.
Ao focar no medo, na violência e
insegurança, por exemplo, não apresenta uma proposta consistente nesse sentido
e muito menos programas viáveis para outras áreas (educação, ciência e
tecnologia, meio ambiente, cultura, saúde etc.) e mesmo em relação à segurança
pública não apresenta alternativas, a não ser generalidades e mais violência
para combater... a violência. E que se associa a uma estratégia de descrença
nas instituições, que pode seduzir uma parcela
do eleitorado, mas que, espera-se, não seja fundamental na decisão do voto da
maioria dos eleitores