Uma questão relevante sobre as pesquisas é saber se elas influenciam o resultado das eleições, ou seja, que impactos geram no processo de formação da opinião e na decisão do voto
O papel e os limites das pesquisas eleitorais na decisão do voto
Uma questão relevante sobre as pesquisas é saber se elas influenciam o resultado das eleições, ou seja, que impactos geram no processo de formação da opinião e na decisão do voto

Por *Homero Costa, às 06:21
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Prof. Dr. Homero Costa / As pesquisas eleitorais foram iniciadas no Brasil nos anos 1950, realizadas tanto em relação às eleições presidenciais de 1955 e 1960 quanto nas eleições estaduais de 1954 e 1958. Com o golpe de 1964 e a ditadura até 1985, o fim das eleições presidenciais diretas e as indicações para governadores e prefeitos, somados aos limites estabelecidos pelo regime militar, só passaram a se desenvolver com a criação de diversos institutos de pesquisa a partir do fim da ditadura, em 1985.
Um marco importante nesse sentido foram as eleições presidenciais diretas de 1989. Desde então, em todas as eleições subsequentes, as pesquisas passaram a ter um papel - se não decisivo, ao menos importante - para os partidos, desde a escolha de seus candidatos até a orientação das estratégias de campanha.
Um dos objetivos das estratégias é conhecer o perfil do eleitorado e orientar partidos e candidaturas sobre os temas que aparecem como mais importantes para a população, como segurança pública, o combate à violência, corrupção etc.
Uma questão relevante sobre as pesquisas é saber se elas influenciam o resultado das eleições, ou seja, que impactos geram no processo de formação da opinião e na decisão do voto. Muitos estudos têm analisado seus impactos e influências, mas até que ponto elas são decisivas em uma eleição?
Diversos estudos acadêmicos - e não apenas no
Brasil - baseados em ampla base de dados e voltados ao comportamento eleitoral,
mostram que a decisão do voto envolve um conjunto de fatores que vão muito além
das pesquisas eleitorais. Entre eles, destacam-se a formação de identidades
subjetivas do indivíduo, a vinculação do voto ao grupo ou classe social dos
eleitores, e outros componentes relevantes, como religião, escolaridade e nível
de renda.
Há ainda teorias que procuram explicar a decisão do voto como uma escolha racional, como a teoria da escolha racional, segundo a qual o comportamento dos atores políticos pode ser explicado e previsto como produto da ação racional individual orientada por cálculos de interesse pessoal, tendo em vista a maximização de ganhos.
Outros aspectos são igualmente relevantes no processo eleitoral e na decisão do voto, como o papel da propaganda no horário eleitoral de rádio e televisão e das redes sociais. Influenciam, mas quanto? A relação entre redes sociais e decisão de voto, é complexa, mesmo considerando que grande parte do eleitorado se informa por meio delas e tratando-se de um ambiente no qual as pessoas ficam muito tempo imersas, ficam sujeitas a todo tipo de manipulações, fake news etc.
A questão é: Como medir sua influência? O fato é que não há evidências empíricas definitivas a respeito da extensão dessa influência, nem uma resposta única. As campanhas eleitorais e a decisão do voto não se restringem a pesquisas eleitorais, nem tampouco à propaganda em redes sociais ou ao horário eleitoral de rádio e televisão. O cenário da disputa pelo voto é mais amplo.
O que são pesquisas eleitorais? Trata-se, basicamente, de uma pesquisa de opinião pública que faz um levantamento sistemático de dados, com aplicação de questionários (no caso de pesquisas quantitativas), baseados em uma amostra representativa do eleitorado, estratificada por sexo, escolaridade, faixa etária, localização geográfica etc., com metodologia definida - que varia conforme quem a realiza - e uso de estatística para a coleta de dados.
O objetivo das pesquisas é conhecer a opinião, os valores e as atitudes dos eleitores (como a intenção de voto ou rejeição de candidaturas, por exemplo), bem como sua percepção sobre temas que consideram importantes (segurança, empregos etc.).
As pesquisas eleitorais dividem-se em duas categorias principais: quantitativas e qualitativas (além de modalidades específicas e menos utilizadas, como painéis e tracking). Podem ser internas, para uso exclusivo de quem as contratou, ou externas. Para se tornarem públicas, precisam ser registradas no TSE - quando se trata de eleições presidenciais - e, nos casos dos estados e municípios, junto aos respectivos Tribunais Regionais Eleitorais, conforme o art. 33 da Lei 9.504/1997.
O que diz a lei? "As entidades e empresas que realizarem pesquisas de opinião pública relativas às eleições ou aos candidatos, para conhecimento público, são obrigadas, para cada pesquisa, a registrar, junto à Justiça Eleitoral, até cinco dias antes da divulgação, as seguintes informações: I - quem contratou a pesquisa; II - valor e origem dos recursos despendidos no trabalho; III - metodologia e período de realização da pesquisa; IV -plano amostral e ponderação quanto a sexo, idade, grau de instrução, nível econômico e área física de realização do trabalho, intervalo de confiança e margem de erro; V - sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta de dados e do trabalho de campo; VI - questionário completo aplicado ou a ser aplicado; VII - o nome de quem pagou pela realização do trabalho".
Caso esses requisitos não sejam cumpridos, as pesquisas são indeferidas. Em 2022, por exemplo, 127 registros de pesquisas foram indeferidos pela constatação de irregularidades (metodológicas e documentais).
E são muitas. Para as eleições gerais de outubro de 2026, até 31 de julho, de acordo a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (ABEP), com dados do TSE, foram registradas 997 pesquisas de 181 empresas (209 apenas em julho, que registrou o maior número do ano), sendo 794 presenciais e 203 por telefone e internet. Um aspecto importante do levantamento são as variações por região: no Nordeste, foram 401 (a maioria); 162 no Centro-Oeste; 152 no Norte; 126 no Sudeste; 63 no Sul; e 93 para eleição presidencial. Leia aqui
Em relação ao Rio Grande do Norte, entre 28 de março a 6 de agosto de 2026, foram registradas 50 pesquisas sobre Eleições Gerais, de diversos institutos de pesquisas. Leia aqui (https://www.tse.jus.br/eleicoes/pesquisa-eleitorais/consulta-as-pesquisas-registradas).
Em relação às pesquisas quantitativas, utilizam amostragem estatisticamente representativa do eleitorado (gênero, escolaridade, faixa etária etc.). As entrevistas podem ser presenciais, por telefone ou por meio de painéis online. Todas devem incluir margem de erro e intervalo de confiança. Na aplicação dos questionários, podem incluir os votos estimulados (apresentando uma lista de candidatos) e espontâneos, assim como a avaliação de governos (federal, estaduais e municipais).
Nas pesquisas qualitativas utilizam-se grupos focais, que possibilitam entrevistas em profundidade, ao contrário das quantitativas. Os levantamentos são feitos com o chamado "recrutamento aleatório", também com base em dados do IBGE e do TSE sobre a composição do eleitorado - com paridade de gênero, proporcionalidade de raça e religião, entre outros aspectos.
Como exemplo de pesquisa qualitativa, podemos citar uma realizada pelo Observatório Político e Eleitoral (OPEL) do Rio de Janeiro, entre os dias 29 de abril e 3 de julho de 2026, com 80 grupos focais em 13 capitais brasileiras. A pesquisa foi coordenada pelo professor da UFRJ e cientista político Josué Medeiros. Ao defender o uso de grupos focais, ele afirma que "permitem aprofundar aspectos do comportamento político que aparecem apenas de forma superficial nas pesquisas quantitativas. Reunidos presencialmente, os participantes conversam a partir de um roteiro semiestruturado, que abre espaço para reflexões sobre o Brasil, a vida cotidiana e a política".
Ao analisar os resultados no artigo "O Brasil está preparado para derrotar novamente o bolsonarismo", publicado na revista Carta Capital, mostra como mudanças podem ocorrer. Quando a pesquisa foi iniciada, Flávio Bolsonaro estava em ascensão, "e o debate público estava dominado por uma expectativa de retorno ao poder da extrema direita". Em maio, houve a virada de Lula, que passou a liderar todas as pesquisas tanto no primeiro turno quanto em um eventual segundo turno.
Uma das constatações da pesquisa - que não é possível captar em pesquisas quantitativas - foi o que ele chamou de um persistente mal-estar no país, concentrado sobretudo em quatro áreas: renda e poder de compra, transporte e mobilidade urbana, saúde e segurança pública.
Esse mal-estar expressou-se também em uma crítica generalizada aos políticos e à política em geral.
Mas a principal novidade da pesquisa foi o fato de que o modo como às pessoas estão elaborando suas insatisfações apresenta características que dificultam a "captura" desse sentimento pela extrema direita. Além disso, revelou-se a compreensão de que as dificuldades enfrentadas no país, como a alta dos preços dos alimentos, por exemplo, devem-se a fatores externos, como guerras, questões climáticas, entre outros, e nesse sentido, "não é tudo culpa do governo".
Constatou-se também a defesa do SUS - mesmo considerando algumas dificuldades -, assim como das vacinas, com adesão à imunização generalizada, e os impactos positivos de iniciativas do governo como Desenrola, CNH para Todos, isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco salários mínimos, etc.
O fato é que esse tipo de pesquisa permite uma maior profundidade, que não se mede apenas com números. Em relação à segurança pública, revelado nesta e também em outras pesquisas, há uma compreensível preocupação, e sua relevância, não por acaso, tornou-se uma pauta explorada pela extrema direita.
No entanto, há uma clara percepção de que o combate à criminalidade, à violência, às milícias, facções etc., além de necessário e urgente, é uma responsabilidade compartilhada entre União e estados.
Mais uma vez, não se atribui a culpa apenas ao governo federal. E, como a pesquisa foi realizada no Rio de Janeiro, o fato de o estado ser governado por um partido de extrema direita desde 2018, mostra que esse partido não consegue resolver o problema da violência e da criminalidades sequer nos estados que governa, no caso do Rio, com investigações policiais em relação à associação com facções criminosas.
Um aspecto relevante em relação às pesquisas eleitorais é que elas não têm a capacidade de antecipar resultados eleitorais nem medir o comportamento eleitoral. Podem, sim, captar tendências. Nesse sentido, é um erro tratar pesquisas como previsão ou supor que tenham algum poder preditivo. Como captar, por exemplo, o chamado voto útil, as abstenções, os votos em branco e os nulos?
Outro erro é fazer comparações entre institutos de pesquisa. São muitos e com metodologias e amostragens diferentes. Pesquisas é o "retrato" do momento da coleta, e os resultados eleitorais são muitas vezes totalmente diferentes, mesmo em pesquisas feitas em vésperas de eleições.
Há
de se considerar não apenas os erros, como têm sido constatados ao longo do
tempo, mas também fatores conjunturais, políticos, econômicos etc., que podem
alterar a intenção de voto, como o dos indecisos - que são muitos e podem ser
decisivos em determinada eleição. E, fundamentalmente, existe em toda eleição
um componente de imprevisibilidade que escapa à capacidade das pesquisas
eleitorais.
*Homero Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR).
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