Uma parcela expressiva da população brasileira está submetida ao ecossistema da desinformação, formado por ações deliberadas para confundir ou manipular pessoas por meio da disseminação de informações falsas
O ecossistema da desinformação, as big techs e seus impactos eleitorais
Uma parcela expressiva da população brasileira está submetida ao ecossistema da desinformação, formado por ações deliberadas para confundir ou manipular pessoas por meio da disseminação de informações falsas
Prof. Homero Costa | O Brasil vive hoje um processo de reconstrução do Estado brasileiro, após os dois governos que antecederam o atual. Esse processo, porém, está sob ameaça, diante de possibilidades de retrocessos em todas as áreas em um eventual governo de extrema direita. Por que isso pode ocorrer? Com o retorno de Lula, em 2023, o país voltou à normalidade democrática, e houve a retomada dos investimentos em obras e políticas públicas, como Farmácia Popular, o novo Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, além da criação de novos programas, como Aqui Tem Especialistas e Pé-de-Meia.
Essas políticas públicas beneficiaram milhões de pessoas, muitas das quais saíram da pobreza extrema. São avanços e conquistas que podem estar ameaçados.
Além das políticas públicas, destacam-se a inflação sob controle, a queda da taxa de desemprego para o menor nível histórico, o crescimento do PIB, a subida do país no ranking da liberdade de imprensa, a sanção da lei da igualdade salarial entre homens e mulheres que exercem a mesma função, a aprovação da medida provisória para taxar os super-ricos e a criação do primeiro Ministério dos Povos Indígenas, entre outras conquistas.
O país também resgatou a política externa, recolocando o Brasil nas principais discussões do cenário internacional. Destacam-se, ainda, os avanços nas áreas da cultura, dos direitos humanos, da economia e da saúde - entre eles, o reforço do programa de cobertura vacinal, o relançamento do programa Mais Médicos e a criação de um programa para reduzir as filas do SUS -, além dos investimentos em educação, com a criação de novos institutos federais e universidades.
No entanto, o que se pode constatar é que as informações sobre esse conjunto de ações parecem não estar chegando à população em geral. O que explica isso? Um dos motivos, apontado por especialistas que têm estudado o assunto, é que uma parcela expressiva da população está submetida ao chamado ecossistema da desinformação, formado por ações deliberadas para confundir ou manipular pessoas por meio da disseminação de informações falsas. Esse ecossistema se articula e se estrutura como um projeto político.
Uma das especialistas que estudam o tema é Eliara Santana, jornalista, doutora em Linguística e Língua Portuguesa, com foco em Análise do Discurso, e coordenadora do programa Desinformação & Política. Ela também desenvolve pesquisas sobre desinformação, desinfodemia e letramento midiático no Brasil. No artigo "A teia da mentira", publicado na revista CartaCapital em 1º de fevereiro de 2024, Santana define o ecossistema da desinformação como "uma organização complexa e dinâmica que não se restringe apenas à ação de espalhar noticias falsas". A autora destaca que se trata de "uma rede profissional organizada para produzir e espalhar conteúdos falsos, em várias vertentes, como muitos atores envolvidos e farto financiamento público".
Os conteúdos produzidos por esse ecossistema tiveram e continuam tendo impactos significativos na democracia brasileira, como demonstram as fake news e a desinformação sobre as urnas eletrônicas e as vacinas, entre outros exemplos.
Em relação as vacinas, foi assim durante a pandemia, com mentiras sistemáticas sobre sua eficácia no combate à covid-19. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, campanhas de desinformação sobre vacinas contribuíram para a queda da imunização e para o retorno de doenças erradicadas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
E em período eleitoral, mentiras sistemáticas e intencionais continuaram e se intensificam e passam a ser produzidas e circular nesse ecossistema da desinformação, especialmente no WhatsApp, no Telegram e no Instagram. Essas mensagens têm impacto inegável sobre o comportamento e as preferências políticas de uma parcela da sociedade, vítima da desinformação.
A extrema direita conhece a importância da comunicação e o poder da desinformação para dar suporte a projetos políticos autoritários. Para isso, investem principalmente nas redes sociais como plataformas de comunicação política, cujas dinâmicas se retroalimentam. Fazem parte desse ecossistema as big techs, os meios de comunicação tradicionais - rádio, televisão e jornais impressos e digitais - e também setores do universo religioso (no caso, o uso político da religião por lideranças que apoiam e se beneficiam com esses projetos).
Quanto ao papel das big techs, elas não são neutras e têm atuado de forma expressiva nas eleições. Sergio Amadeu da Silveira, sociólogo, professor da UFABC e um dos principais estudiosos do tema no Brasil, aborda essa questão no artigo "Você acredita na neutralidade das big techs?", publicado em abril de 2025 no site Brasil de Fato: "Com as pessoas conectadas ou acessíveis boa parte do tempo, as plataformas de relacionamento digital se tornaram gigantes da comunicação. Antes da expansão das redes digitais, não existia nenhuma empresa com o poder de acessar, a qualquer hora, mais de dois terços da população mundial, como fazem as plataformas de relacionamento, os mecanismos de busca e os aplicativos de mensagens instantâneas. Hoje, elas existem e são controladas pelas big techs, principalmente os grupos Alphabet (Google), Meta (Facebook), Apple, Amazon e Microsoft".
Ele argumenta que foram desenvolvidas tecnologias capazes de gerar dependência, e as tecnologias da informação, em particular, passaram a dominar a comunicação planetária. "Elas foram criadas em contextos específicos e possuem finalidades e objetivos, muitos dos quais foram subvertidos em seu uso". Um exemplo é o aparelho celular, que serve não apenas para fazer e receber ligações, e que a maioria das pessoas organiza a vida em torno dele para pagar contas, receber informações, consultar serviços etc. em suma, torna-se uma máquina de processamento de dados conectada a outras pela internet.
Com isso, as plataformas digitais ampliam a capacidade de controle e vigilância. Para abordar esse tema, ele cita Shoshana Zuboff, professora emérita na Harvard Businesds Scholl e , em particular, o livro A era do capitalismo de vigilância — a luta por um futuro na nova fronteira do poder (Editora Intrínseca, 2020), no qual a autora denomina esse sistema econômico "capitalismo de vigilância", pois as big techs coletam dados incessantemente para traçar perfis e modular o comportamento das pessoas.
Ele afirma que grande parte das interações humanas no mundo hoje "ocorre com a mediação dessas plataformas, as chamadas redes sociais, administradas por algoritmos opacos, sem transparência ou auditoria por instituições democráticas. O poder dessas plataformas é tão grande que, ao reduzir a visibilidade de conteúdos de certos grupos políticos, podem desequilibrar completamente a formação de opinião".
É exatamente isso que tem ocorrido na eleição presidencial brasileira de 2026. São denúncias de interferência das big techs nas eleições. Essas plataformas estariam beneficiando candidaturas da extrema direita. Uma matéria publicada no site Brasil 247 informa que mais de 100 entidades e especialistas de 25 países acusam grandes empresas de tecnologia de descumprir normas eleitorais brasileiras e cobravam medidas urgentes de fiscalização antes do segundo turno da eleição presidencial.
O documento é em forma de uma Carta que aponta propaganda irregular, uso de inteligência artificial, falhas na fiscalização das plataformas e irregularidades relacionadas à propaganda política e à moderação de conteúdos nas plataformas digitais às vésperas do segundo turno da eleição presidencial.
Segundo a matéria, a carta "foi organizada pela CTRL+Z, entidade que já denunciou a Meta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por bloquear Lula no Meta AI. Entre os participantes estão ARTICLE 19, Greenpeace, Oxfam Brasil e Global Witness, além de pesquisadores de instituições como Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade de Brasília (UnB)".
Embora os signatários peçam providências tanto às autoridades brasileiras quanto a organismos internacionais responsáveis pela proteção dos direitos humanos e da liberdade de expressão, cabe perguntar: o que foi feito nesse sentido?
Como indagou Sergio Amadeu da Silveira em abril de 2025: essas plataformas e seus algoritmos invisíveis, submetidos aos interesses de seus donos, serão neutros em países com governos que discordam de Trump e Elon Musk? Para ele, tudo indicava que não: "Até Zuckerberg, que antes se apresentava como contrário à desinformação, alinhou-se a Musk, aliado de Trump e da extrema-direita norte-americana (...) Os algoritmos do Instagram não favorecerão a desinformação dos neofascistas no Brasil? A IA do WhatsApp não reforçará mentiras em suas mensagens? Mudarão seu comportamento nas eleições de 2026 no Brasil? Adotarão decisões democráticas em vez de arbitrárias? Você acredita nisso?"
A questão central é que essas plataformas não tratam a esquerda e a extrema direita da mesma forma e fundamenta a sua hipótese que as plataformas das big techs se tornaram infraestruturas geopolíticas da extrema direita.
Um dos principais instrumentos utilizados por esse ecossistema da desinformação são as fake news, cuja disseminação pelas big techs desempenha um papel importante, especialmente nos processos eleitorais. Quem elabora e propaga mentiras sabe que as emoções geram muito engajamento, como evidenciam pesquisas em Psicologia Social que analisam a predisposição de determinados públicos a acreditar nessas mensagens sem contestá-las. Esse comportamento está relacionado ao chamado viés de confirmação, isto é, à tendência de buscar e privilegiar informações que estejam de acordo com crenças preestabelecidas, independentemente de serem verdadeiras ou não.
Além da necessidade de regulamentar as plataformas e aprovar leis ainda em debate no Congresso Nacional e no STF, há várias iniciativas importantes da sociedade civil para combater o ecossistema da desinformação. Entre elas, está o Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais da UFRJ (NetLab), cujas pesquisas buscam mapear narrativas desinformativas, como aquelas que antecederam as eleições de 2022, com alegações de fraude nas urnas que tiveram consequências na tentativa de golpe de janeiro de 2023. Outra iniciativa é a criação do Observatório da Desinformação na Unicamp, que visa compreender o fenômeno no país.
Os resultados dessas pesquisas e sua divulgação são fundamentais, pois contribuem para a compreensão do ecossistema da desinformação e de suas consequências para a democracia no Brasil.
*Homero de Oliveira Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR).
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