No
livro Como as democracias morrem, uma das teses centrais é que o fim
das democracias não se dá mais com os tradicionais golpes militares, mas pelo
voto: as democracias são corroídas lentamente, e lideranças de extrema direita,
como tem ocorrido em vários países, subvertem o processo que as levou ao poder.
Um
dos componentes desse processo, além das mentiras, fake news, e violência, é a intolerância. Para Levitsky, "a
intolerância mútua coloca a democracia em perigo. Quando a política fica
polarizada a ponto de vermos rivais como ameaça à nossa existência, o que
tornaria sua eleição intolerável, começamos a justificar o uso de meios
extraordinários - violência, fraude eleitoral, golpes - a fim de
derrotá-los".
O termo recessão democrática
foi utilizado pelo cientista político norte-americano Larry Diamond
(Universidade Stanford) no artigo Facing Up to the Democratic
Recession ("Enfrentando a recessão democrática"),
publicado no Journal of Democracy (volume 26, number 1, janeiro de 2015) e
disponível AQUI.
Para
ele, as características dessa recessão são: o declínio da participação popular
em eleições; a fraqueza no funcionamento dos governos; o declínio da confiança
nas instituições e nos partidos políticos; a crescente influência de
instituições e órgãos de especialistas não eleitos nos processos eleitorais e o
abismo entre as elites políticas e o eleitorado; o declínio na liberdade de
expressão; e a erosão das liberdades civis.
Esse
diagnóstico faz parte de vários relatórios internacionais que analisam as
democracias no mundo, com o objetivo de mensurar a percepção do regime político
democrático, revelando um processo de recessão democrática em indicadores como:
processo eleitoral e pluralismo, liberdades civis, funcionamento do governo,
participação política e cultura política.
O fato é que houve um crescimento eleitoral da
extrema direita no mundo (mas com reveses importante que ocorreram no Brasil e
Estados Unidos mais recentemente) revelando uma crise da democracia
representativa, que se caracteriza, entre outros aspectos, pela perda de
confiança na política democrática e no Legislativo, no Executivo e no
Judiciário.
A
partir do golpe contra a presidente Dilma Rousseff em 2016, o estado da
democracia no Brasil seguiu a tendência global e piorou a partir de 2017, com o
governo golpista de Michel Temer e se ampliou entre os anos 2019-2022 no
governo Bolsonaro. Só houve uma recuperação dos índices democráticos a partir
de 2023, com o início do mandato de Lula.
Uma
vitória eleitoral da extrema direita significaria o fim da democracia, mas a
luta pela necessidade de mantê-la foi mais importante nesse processo eleitoral.
Na campanha eleitoral, entre outros aspectos, a extrema direita utilizou o tema
da segurança como uma de suas bandeiras, tentando dar uma falsa sensação de
segurança (falsa porque nos governos de extrema direita nos estados não
conseguiu combater de forma eficaz a violência) e muito menos à corrupção.
Enfim, sua trajetória no país (e em outros também) significa o aprofundamento das
desigualdades, da violência e da corrupção.
As
ameaças à democracia nas eleições de
outubro de 2026 por parte da extrema direita teve como uma de suas
"justificativas", justamente o combate à
"desordem", à "insegurança" e à "corrupção" e,
para isso, juntaram racistas, homofóbicos, misóginos, defensores de ditadura, que alimentaram esse discurso, como se a
extrema direita fosse a solução e não tivesse contribuído justamente para
aquilo que acusa.
Nesse
sentido, as perspectivas em relação à democracia nas eleições de outubro colocavam
duas possibilidades: ou manter, com todas as suas limitações, a democracia ou o retrocesso. A democracia foi mantida! Com
uma vitória da extrema direita, existia a possibilidade de uma transição, pela
via eleitoral e por mudanças na Constituição, que poderia levar a um Estado
autoritário e, pior, com o apoio de parcelas significativas da população.
O
fato é que havia uma ameaça real à democracia, com o desprezo as instituições
democráticas - e não apenas no Brasil – com as consequências que se conhecem
desses retrocessos: além da xenofobia (especialmente nos países europeus e nos
Estados Unidos com Donald Trump) , a regressão de toda ordem: cultural, política, econômica e social.
Agora,
com a vitória eleitoral das forças democráticas, uma questão relevante é: como
construir uma base político-partidária
no Congresso Nacional (Câmara doso Deputados e Senado) sendo minoria?
Nesse sentido, não há alternativa, além das articulações que o governo possa
fazer no chamado presidencialismo de coalizão, que não a continuação da
mobilização popular, que vá além do
processo eleitoral e se mantenha em defesa do governo Lula e seus avanços na
área econômica, política e social.
Assim,
num momento em que a democracia esteve ameaçada no Brasil, com o candidato da
extrema direita com mais votos no primeiro turno da eleição de outubro de 2026,
houve um extraordinário movimento de organização no país no segundo turno, em
defesa da reeleição de Lula e um exemplos dessa mobilização foram os mais de 10
milhões de adesões ao "Exército do Lula",
iniciativa do deputado federal (MG) André Janones, a mobilização e ações
da juventude nas ruas e nas redes, à participação de muitos idosos que não
haviam votado no primeiro turno e o resultado foi a vitória de Lula que teve
mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno, derrotando o
candidato da extrema direita.
Um
governo Lula significa a defesa do Estado Democrático de Direito, com respeito
às liberdades civis e aos direitos humanos, portanto, foi contra tudo e todos que
queriam romper com as regras do jogo democrático que a democracia venceu e agora
não resta outra alternativa aos derrotados a de querer negar a legitimidade da
vitória de Lula. Derrotados e que continuam a cultivar o ódio e a intolerância,
como queriam, no fundo, pavimentar o caminho de uma ditadura. Ditadura, nunca
mais!