É "brochante" preparar aula e chegar na hora ver aluno dormindo na carteira

10/08/2026

A sensação é de falar para um público que está fisicamente presente, mas emocionalmente longe, como se o conteúdo não fizesse parte de suas vidas. Fico a me perguntar: será que minhas aulas são tão desinteressantes assim? 

Por *Ricardo Oliveira, professor da Educação Básica, SP, às 21:32

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Educação / Ao entrar em sala de aula, o silêncio que toma conta do ambiente quase nunca é o da concentração, mas o da apatia. Olhares vagos, cadernos e livros fechados, poucas mãos erguidas, quase nenhuma curiosidade à vista: esse é o cenário que se repete dia após dia no meu contexto escolar. Para quem ensina, é algo profundamente desanimador, verdadeiramente “brochante”.

Alguns estudantes ficam quase que adormecidos sobre as carteiras. A sensação é a de falar para um público fisicamente presente, mas emocionalmente distante, como se o conteúdo escolar não tivesse qualquer ligação com suas histórias de vida, seus desejos, seus desafios e seu futuro. Surge então uma dúvida incômoda: será que minhas aulas são tão desinteressantes assim, ou o problema está em como a educação tem sido organizada?

Com o passar do tempo, essa falta de envolvimento e participação começa a corroer, pouco a pouco, o entusiasmo de quem ensina. O meu já está bastante desgastado, como se cada dia em sala de aula me exigisse um esforço maior para manter viva a chama de educar, inspirar e transformar por meio da educação.

Planejamentos criativos, atividades diferenciadas e recursos variados parecem não surtir efeito no engajamento dos estudantes. Por quê? A cada tentativa frustrada de tornar a aula mais significativa e legal, nasce uma dúvida incômoda sobre a própria competência profissional, sobre a qualidade da prática pedagógica e sobre o real impacto do trabalho desenvolvido por mim na escola.

O que mais desmotiva não é a dificuldade do conteúdo, mas a ausência de curiosidade e interesse. Quando perguntas deixam de surgir, quando o erro passa a ser visto com indiferença e a participação diminui, o processo de ensino-aprendizagem perde sua vitalidade. A aula deixa de ser encontro, troca e construção de conhecimento, e se transforma em mera obrigação cumprida por ambos os lados. E isso me deixa triste, muito triste.

Essa realidade afeta também, de forma profunda, a dimensão emocional do educador. A minha está muito afetada. A alegria de ver um aluno progredir, descobrir algo novo, desenvolver autonomia ou superar um desafio é um dos principais combustíveis da profissão docente. 

Quando esses momentos se tornam raros, cresce o cansaço, a sensação de solidão, o desgaste emocional e a vontade de simplesmente seguir o roteiro, sem grandes expectativas. Coisa ruim.

Ainda assim, após cada frustração, há uma pausa para respirar fundo e buscar novas estratégias que aproximem novamente os estudantes do conhecimento e do aprendizado significativo. Projetos interdisciplinares, uso de tecnologias digitais, debates em sala de aula e atividades práticas são tentativas constantes de romper o muro da desatenção e da desmotivação escolar. Em alguns momentos, pequenos avanços aparecem, sinalizando que ainda existe, ou pode existir, espaço real para a transformação educacional. Será?

Mesmo diante da desmotivação e do cansaço, permanece a convicção de que a educação continua sendo um caminho potente de mudança social e pessoal. O grande desafio está em reencontrar o sentido do ato de ensinar em meio à indiferença, resgatando o diálogo, a escuta ativa e o vínculo humano entre professor e estudante, elementos essenciais para uma prática pedagógica transformadora. 

É nesse equilíbrio delicado entre frustração e esperança que o trabalho docente segue, na expectativa de que, em algum momento, um olhar desperto volte a brilhar em sala de aula e o interesse pelo conhecimento renasça. A vontade é de não desistir da educação, nem dos estudantes. Mas a coisa não está fácil.

*Ricardo Oliveira é nome fictício. O docente não quis se identificar.

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