Pesquisa CNTE/FGV revela que o cotidiano docente no Brasil beira o insuportável

25/09/2026

Levantamento inédito escancara o avanço da polarização e da pressão política nas escolas, apontando que três em cada quatro professores têm medo de punições por decisões profissionais

> Educação

*Laryssa C Medeiros e Flávia M Assunção, às 07:22

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O ambiente escolar brasileiro vive um dos momentos mais tensos e sufocantes de sua história recente. É o que aponta uma importante pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV). Os dados revelam um cenário em que a rotina nas salas de aula beira o insuportável, marcada pelo medo, pela erosão da autonomia pedagógica e pelo cerceamento da liberdade de ensino.

A polarização política, que há muito transbordou o debate público virtual, fincou raízes profundas no cotidiano das instituições de ensino, transformando o exercício da docência em um ato de constante vigilância e autocensura.


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violência contra professores nas escolas
A sensação de perseguição e a falta de liberdade para exercer a profissão docente no Brasil estão entre os vários fatores que têm afastado educadores das escolas, seja por licenças médicas ou até mesmo por pedidos de demissão. Foto/reprodução.

Os números da crise: o medo e o sufocamento da autonomia

O levantamento detalha o tamanho do impacto sofrido pelos professores da educação pública no país. Entre os indicadores mais alarmantes, destacam-se:

  • 75% afirmam que, atualmente, seu trabalho está mais exposto a críticas políticas do que no passado, evidenciando o crescimento do patrulhamento ideológico.

  • 71,7% afirmam que, atualmente, seu trabalho está mais exposto a críticas políticas do que no passado, evidenciando o crescimento do patrulhamento ideológico. 

  • 66,8% relatam que até mesmo decisões rotineiras do trabalho podem ser distorcidas e interpretadas como posicionamentos político-partidários.

  • 61% sentem que a pressão política limita diretamente a autonomia necessária para exercerem o trabalho da forma que consideram adequada e técnica.

  • 58% apontam que sofrem pressão direta para mudar procedimentos ou rotinas de trabalho por determinação de órgãos ou agentes governamentais.

  • 64,5% concordam que têm pouco espaço para interpretar as regras educacionais, sendo empurrados para uma lógica de cumprimento cego de ordens ("apenas segui-las").

  • 44% relatam já ter vivido conflitos diretos com famílias de alunos motivados por causa de seu trabalho em sala de aula.

Quando a sala de aula se transforma em campo minado

Os dados expõem um processo crônico de desvalorização e de descaracterização do papel docente. O profissional da educação, que deveria atuar como mediador do conhecimento científico e crítico, passa a ser visto sob a lente da desconfiança. Situações corriqueiras — como a escolha de metodologias, a abordagem de temas transversais ou a flexibilização de regras para atender alunos com necessidades específicas — viram alvos de linchamentos virtuais, gravações clandestinas e ameaças de retaliação.

Essa camisa de força institucional gera um ambiente propício ao adoecimento generalizado, à exaustão mental e ao desestímulo profissional. Ao transformarem a escola em uma espécie de "linha de produção" rígida e vigiada, abre-se margem para a precarização do ensino e para o risco iminente de um apagão de professores na rede pública.

Quais são as saídas para a crise?

Diante de um cenário insustentável, especialistas e entidades representativas apontam caminhos urgentes para resgatar a dignidade, a segurança e a sanidade do trabalho docente:

  1. Garantia e Proteção Legal da Autonomia Pedagógica: É imperativo que os sistemas de ensino reforcem o respaldo técnico e jurídico ao professor, blindando-o contra interferências político-partidárias indevidas e garantindo o respeito à liberdade de cátedra.

  2. Criação de Protocolos de Combate ao Assédio Político: Redes de ensino precisam instituir canais seguros de acolhimento e ouvidorias especializadas para proteger educadores contra o assédio, ameaças de famílias e exposições vexatórias em redes sociais.

  3. Valorização Profissional e Reconhecimento da Complexidade: O professor não pode ser reduzido a um mero executor de cartilhas.

  4. Diálogo Democrático e Combate à Desinformação: É fundamental restabelecer pontes saudáveis entre escola e comunidade, conscientizando as famílias sobre o papel da educação plural, combatendo boatos e o patrulhamento ideológico que corrói o ambiente escolar.

O resgate da autonomia e da paz nas escolas não é apenas uma pauta corporativa da categoria: trata-se de uma condição essencial para a sobrevivência da própria democracia e da qualidade da educação pública no Brasil.

Outros dados da pesquisa

  • 96,3% consideram IMPORTANTE CONTRIBUIR para o bem-estar da sociedade e 
  • 96% consideram seu trabalho uma forma de servir à sociedade.
  • 88,6% AVALIAM POSITIVAMENTE a relação que mantêm com os alunos, e 
  • 85,1% afirmam que os alunos confiam neles.

Perfil dos entrevistados

Distribuição das respostas nas regiões do Brasil: 

  • o Sudeste concentra 42% das respostas; 
  • em seguida, o Sul, com 23%; 
  • Nordeste, 21%; 
  • Centro-oeste, 10% ; e 
  • Norte, com a menor representação, 3%. 
  • Segundo dados do Censo Escolar 2025, o Sudeste também concentra a maior parte dos docentes de escolas de administração pública – cerca de 37% do total do país – , seguido por Nordeste, 29%; Sul, 16%; Norte, 9,9% e, por fim, Centro-Oeste, com 7,1%.

Perfil etário

O perfil etário da amostra de 2.235 respostas válidas:

  • Há predominância na faixa etária de 50 a 59 anos, com 38% dos entrevistados, 
  • seguida pelos profissionais de 40 a 49 anos (31%). 
  • Já as faixas de 60 anos ou mais e a soma das faixas abaixo de 39 anos respondem por cerca de 15% das respostas cada.

Sobre sexo e raça/cor: 

  • 34% dos entrevistados se identificam como mulheres brancas,
  • seguidas por mulheres negras (26%), 
  • homens brancos (19%) e 
  • homens negros (17%). 
  • A categoria "outros" concentra 5% das respostas, reunindo tanto as opções de raça/cor não contempladas nos quatro grupos principais (indígena, amarela e "prefiro não informar") quanto as respostas de sexo assinaladas como "outro" ou "prefiro não informar".

Quanto ao perfil profissional:

  • A predominância é de vínculo de servidor concursado, com 76,2% dos(as) respondentes. 
  • O contrato temporário (designado, CLT, OFA ou similar) responde por 22%, 
  • enquanto professor(a) substituto(a) e a opção "outro" foram assinalados em apenas 0,9% das respostas válidas cada.
  • O cargo mais assinalado foi o de professor(a) de ensino fundamental (47% dos respondentes), 
  • seguido por professor(a) de ensino médio (42%); 
  • coordenador pedagógico (6%) e 
  • professor(a) de educação especial/AEE (5%).
  • Detalhe: essa questão permitia a seleção de mais de uma opção de cargo, havendo respondentes com múltiplas marcações.
  • Dessa maneira, o total de marcações constitui o universo da amostra para os cargos. 
  • Ainda, o público-alvo da amostra era composto por professores dos anos finais e do ensino médio, coordenadores e profissionais de educação especial, o que explica a concentração de respondentes nesses cargos.

Referências:

CNTE/FGV

*Laryssa C Medeiros e Flávia M Assunção são formandas de Pedagogia e seguem o Dever de Classe

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