Adélio Bispo, a "facada" em Bolsonaro e os heterônimos de Fernando Pessoa!

18/09/2021

Falta apresentar o Adélio por ele mesmo.

Foto/Reprodução.
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Por Landim Neto, editor do Dever de Classe
Por Landim Neto, editor do Dever de Classe

Cultura | Escrevi o pequeno texto abaixo em junho de 2019. Agora, após exibição de documentário dirigido pelo experiente jornalista Joaquim de Carvalho — que trouxe novamente ao debate o estranho caso da "facada" em Jair Bolsonaro —, decidi publicá-lo novamente, com algumas pequenas alterações, mais de forma que de conteúdo. 

Eis:

O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) inovou na literatura mundial. Enquanto renomados autores criaram personagens, Pessoa criou personalidades — os heterônimos — na verdade, outros poetas. E todos com estilo e biografia próprios. 

Se vivo fosse, Fernando Pessoa talvez conseguisse explicar quem de fato é Adélio Bispo, o homem que supostamente esfaqueou Jair Bolsonaro no calor do primeiro turno das eleições de 2018. 

Antes que busquemos, contudo, entender Adélio a partir da obra do autor de Mensagem, é importante conhecer e/ou relembrar alguns dados das criações do poeta nascido em Lisboa e o mais famoso de Portugal. Continua, após o anúncio.

Dentre as personalidades paridas por Fernando Pessoa, três são muito conhecidas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. E há também o poeta modernista Fernando Pessoa por ele mesmo, uma quarta personalidade.

Caeiro (1989-1915) viveu no campo e era de estilo e linguagem simples. Só estudou até o primário. 

Reis estudou medicina, é antimodernista e possui linguagem clássica e vocabulário erudito. Nasceu em 1887. Data de sua morte é desconhecida. 

Por fim, Campos é engenheiro e modernista. Nasceu em 1890. Data do seu falecimento também não se sabe. 

Fernando Pessoa por ele mesmo dispensa maiores apresentações. É o próprio.

A partir de tais personalidades tão díspares, é possível estabelecer um paralelo entre as diferentes pessoas criadas pelo poeta português e o "esfaqueador" Adélio

A diferença é que nos heterônimos nós temos personalidades em pessoas distintas. Em Adélio, nós temos personalidades diferentes em uma pessoa só. Continua, após o anúncio.

Um primeiro Adélio foi apresentado por setores da mídia como um homem educado e bem sucedido financeiramente, a ponto de pagar R$ 600, 00 por uma hora num clube de tiro frequentado por pessoas de classe média de Florianópolis. 

Um outro Adélio, humilde, é desempregado, embora tivesse dinheiro para pagar aluguel de pensão. 

Um terceiro, por fim, é um rude, fanático e louco de 'esquerda' que pega uma faca e decide ir, sozinho, matar um candidato a presidente da república rodeado de seguranças e famoso por pregar a morte de opositores.

Fossem esses diferentes "Adélios" criação de Fernando Pessoa, tudo bem. O poeta demonstrou que era muito inventivo mesmo. 

O problema é que, no mundo poético de Pessoa, personalidades criadas não precisam de maiores explicações. Basta que o leitor se entretenha com o que cada uma delas produz. 

No mundo verdadeiro dos "Adélios", no entanto, talvez as autoridades e a grande mídia estejam ocultando uma quarta pessoa: o Adélio real. O Adélio por ele mesmo. 

Talvez por isso o tornaram inimputável. Talvez por isso não o deixam falar.

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