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Entre a lousa e a lâmina ou como a sociedade anestesiada normaliza o horror nas escolas
Passar pano institucional para a barbárie é o que realmente nos paralisa. Autoridades e uma parcela considerável da sociedade desenvolveram uma habilidade extraordinária para eufemizar a crueldade contra educadores

Por *Vânia A Sampaio, às 23:41
Educação / Ministrar aulas sempre exigiu uma boa dose de vocação e outra ainda maior de paciência, mas virar o alvo da vez definitivamente não estava no plano de curso de ninguém. O problema é que a sala de aula se transformou em um espaço onde a agressão não apenas bate à porta, ela entra, senta na primeira fileira e dá as cartas. O mais impressionante, contudo, não é a ousadia do desrespeito em si, mas o dar de ombros coletivo que se segue a cada episódio, como se a ameaça à integridade física do educador fosse apenas um mero efeito colateral da profissão.
O caso recente do professor esfaqueado nove vezes por um estudante de apenas 14 anos, em Manaus, é o retrato impecável e trágico dessa anestesia social. Nove golpes não são um descuido, uma provocação boba ou uma simples reação impulsiva da juventude — são uma tentativa brutal de homicídio. No entanto, bastam poucas horas após o socorro médico para que os malabarismos retóricos comecem. De repente, a comoção se dissolve em teses sociológicas sobre a "vulnerabilidade do jovem", enquanto o profissional esfaqueado, ainda em choque, vira só mais uma nota fria de rodapé.
Essa mania quase crônica de passar pano institucional para a barbárie é o que realmente nos paralisa. Autoridades e uma parcela considerável da sociedade desenvolveram uma habilidade extraordinária para eufemizar a crueldade. Quando um docente é atacado, prefere-se rotular a tragédia como um "conflito pedagógico a ser mediado", higienizando o vocabulário para não ter que encarar a palavra que realmente cabe ali: crime. Ao relativizar o inaceitável sob o manto de uma compreensão benevolente, cria-se o ambiente perfeito para que a violência cresça sem qualquer tipo de freio.
É exatamente por essa complacência sistemática que nenhuma providência séria jamais sai do papel. Afinal, reconhecer a gravidade da crise exigiria reformas profundas, protocolos de segurança rígidos, responsabilização efetiva e um respaldo jurídico que quase ninguém quer ter o trabalho de construir. É muito mais barato e conveniente oferecer um workshop de "gestão de estresse" para os professores aprenderem a respirar fundo do que enfrentar a falência moral e a ausência de limites que tomaram conta dos corredores.
Educar exige empatia, mas empatia jamais deveria ser confundida com salvo-conduto para a violência. Professores não precisam de palminhas na janela ou de discursos românticos sobre o sacerdócio da licenciatura; precisam da garantia básica de que voltarão inteiros para casa ao final do expediente. Enquanto continuarmos tratando o absurdo com essa moderação covarde, a lousa continuará manchada. E não haverá teoria pedagógica no mundo capaz de ensinar respeito a quem já aprendeu que agredir um mestre não dá em nada.
*Vânia Sampaio é pedagoga e seguidora do Dever de Classe
Envie também seu artigo para: pontodevista@deverdeclasse.org
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Infelizmente, ocorrido está longe de ser um fato isolado. A profissão docente tem se tornado, a cada dia, uma atividade de alto risco, marcada por um cenário onde professores enfrentam no cotidiano inúmeras formas de violência.




