Na canção "Não Tenho Medo da Morte" (2008), o cantor e compositor Gilberto Gil encarna a distinção entre 'morrer' e 'morte' com singela e rara lucidez
Entre o 'morrer' e a 'morte': algumas reflexões à luz de uma canção do Gil
Na canção "Não Tenho Medo da Morte" (2008), o cantor e compositor Gilberto Gil encarna a distinção entre 'morrer' e 'morte' com singela e rara lucidez

> Cultura | Falar de morte e de morrer não é apenas um jogo de palavras, mas um modo de encarar a própria condição humana. Morrer é verbo, processo, ação em curso: é o tempo em que ainda estamos presentes, sentindo, pensando e, às vezes, até escolhendo como atravessar o fim. Já a morte é substantivo, estado, aquilo que vem depois, quando a presença se extingue e só resta memória, narrativa e rastro. É um fenômeno para quem fica.
"É que a morte já é depoisQue eu deixar de respirar"
"Morrer ainda é aquiNa vida, no Sol, no arAinda pode haver dorOu vontade de mijar"
Na canção "Não Tenho Medo da Morte" (2008), o cantor e compositor Gilberto Gil encarna essa distinção com rara lucidez. Ele afirma não temer a morte em si, esse depois inalcançável, mas revela inquietação diante do como morrer: o sofrimento, a perda de autonomia, a despedida dos afetos. O medo, então, não é do nada posterior, mas da travessia concreta, corporal e emocional, que antecede o fim.
Ao separar morte e morrer, a letra de Gil cultiva uma ética da presença. O morrer é o último território em que ainda podemos exercer liberdade, dignidade e estilo: escolher palavras, rituais, silêncios, gestos de afeto. A morte, por sua vez, pertence aos outros: é o que os vivos fazem com a nossa ausência — as histórias que contam, as canções que ouvem, os significados que projetam sobre o que fomos.
Gilberto Gil, com sua serenidade filosófica, desloca o foco do terror abstrato da morte para a qualidade da experiência de morrer. Em vez de um fim súbito e opaco, ele sugere um caminho que pode ser habitado com consciência, poesia e até humor. O morrer torna-se, assim, um último ato de criação de si, enquanto a morte permanece como horizonte mudo, fora do alcance da experiência.
Nessa perspectiva, temer a morte é quase um equívoco lógico: não estaremos lá para sentir medo ou dor. O que nos assombra é o processo, o desmanche gradual daquilo que chamamos de eu. A canção de Gil nos convida a olhar de frente para esse intervalo derradeiro, reconhecendo nele um espaço de presença radical. Entre a morte e o morrer, é no verbo — e não no substantivo — que ainda podemos escolher como existir.
"Quem sabe eu sinta saudade, heinComo em qualquer despedida"
*Carla Fernandes é historiadora e segue > o Dever de Classe
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