Benito democratizou a beleza, ao provar que um instrumento nobre de cauda podia chorar as dores de uma quarta-feira de cinzas na periferia com a mesma legitimidade com que tocava sonatas em salões fechados
Benito Di Paula, o 'homem da montanha' e 'amigo de Charlie Brown' — partiu
Benito democratizou a beleza, ao provar que um instrumento nobre de cauda podia chorar as dores de uma quarta-feira de cinzas na periferia com a mesma legitimidade com que tocava sonatas em salões fechados
O samba brasileiro sempre foi um território demarcado por violões de sete cordas, cavaquinhos cortantes e a percussão rústica dos morros cariocas. No início dos anos 1970, contudo, um músico de Nova Friburgo, forjado nas noites esfumaçadas das boates paulistanas, ousou subverter essa cartilha sem pedir licença: sentou-se ao piano de cauda com anéis pesados nos dedos, camisa entreaberta, correntes douradas e um formidável talento. Benito Di Paula — nome artístico de Uday Vellozo — transformou o instrumento tradicionalmente erudito e elitista em caixa de ressonância do povão, unindo o lirismo cortante à batucada cadenciada no que a crítica rotulou, por vezes com certo desdém apressado, de "samba-joia".
Benito Di Paula causou estranheza ao levar piano de cauda ao terreiro do samba. foto/reprodução.
O 'homem da montanha' e 'amigo de Charlie Brown partiu

Com a partida de Benito neste domingo, 18 de outubro, o Brasil perde um de seus arquitetos sonoros mais singulares. Benito não era apenas um melodista prolífico; foi um inovador que fundiu a urgência urbana do asfalto com a ginga do terreiro, criando uma linguagem acessível sem nunca abrir mão da complexidade harmônica.
A transgressão no timbre: o samba em clave de piano e violinos
Antes de Benito, o piano no samba habitava quase que exclusivamente as fronteiras elegantes do samba-canção ou da bossa nova — pense em Dick Farney, Johnny Alf ou Tom Jobim. Benito fez outra coisa: usou a mão esquerda no teclado como se estivesse batendo um surdo ou um tamborim, conferindo uma levada sincopada e percussiva ao piano acústico.
A essa base rítmica singular, somou arranjos orquestrais suntuosos, repletos de cordas e violinos de corte dramático, flertando abertamente com o chanson francês, o tango latino e o pop orquestral da época. Essa alquimia sonora causou espanto estético: ao mesmo tempo em que fazia multidões cantarem em coro nas rádios AM e em estádios, Benito desafiava os puristas que enxergavam no violino e no teclado um desvio burguês da essência do gênero.
Crônicas da melancolia e da festa: alguns clássicos
O cancioneiro de Benito é atravessado por uma sensibilidade quase autobiográfica, oscilando entre a solidão da boemia e o calor dos encontros populares:
"Retalhos de Cetim" (1973): uma das obras-primas definitivas da música brasileira. A canção constrói uma narrativa visual devastadora sobre um sambista que gasta o que não tem para vestir sua companheira para o desfile de Carnaval, apenas para vê-la abandoná-lo na passarela.
"Charlie Brown" (1974): fenômeno global que ganhou dezenas de regravações internacionais (da Europa ao Japão), a faixa parte de uma homenagem ao célebre personagem das tiras de Charles M. Schulz para narrar um convite poético a um estrangeiro que desembarca no Brasil, apresentando-lhe os mistérios, a alegria e as contradições do país.
"Mulher Brasileira" (1975): o célebre refrão "Agora chegou a vez vou cantar / Mulher brasileira em primeiro lugar" eternizou uma ode despojada e festiva à autenticidade da mulher do cotidiano, tornando-se um sucesso tocado até hoje.
"Ah! Como Eu Amei" (1981): tema da novela global "O homem proibido", música mostra a veia puramente dramática de Benito, onde a linha melódica do piano conduz uma confissão de arrependimento amoroso de carga quase fatalista.
Entre reverências e atritos: as pontes com a tradição e a vanguarda
Longe de se isolar no próprio sucesso comercial, Benito fez de sua discografia um espaço de diálogos generosos com as grandes referências da cultura nacional:
Tributos a mestres populares: Benito compôs homenagens explícitas a ícones tutelares da identidade brasileira. Celebrou a inventividade poética de Chico Buarque (em "Banda do Povo"), reverenciou o Nordeste profundo e a genialidade do Rei do Baião em parcerias e tributos a Luiz Gonzaga, e cantou a grandeza de Grande Otelo, reconhecendo no ator e comediante a síntese do drama e da graça do homem negro no Brasil.
A célebre "treta" com Paulinho da Viola: a década de 1970 foi marcada por tensões entre as alas ditas "tradicionais" do samba carioca e os novos fenômenos de vendagem. Quando Paulinho da Viola lançou a clássica e elegante "Argumento" (1975) — que alertava: "Tá legal, eu aceito o argumento / Mas não altere o samba tanto assim..." —, a comunidade musical imediatamente interpretou a letra como uma estocada direta ao estilo orquestrado e ao piano de Benito Di Paula. Benito não se calou: respondeu na mesma moeda harmônica com a faixa "Modificação" (1976), defendendo o direito de inovar e contestando o policiamento estilístico com versos afiados ao piano barroco que diziam não haver problema em vestir o samba com terno de gala. O entrevero, que mais tarde se diluiu no respeito mútuo entre dois cavalheiros da canção, serviu para enriquecer o debate estético sobre a pureza e a evolução da MPB.
O legado cult de um pioneiro da canção popular
O tempo tratou de fazer justiça a Benito Di Paula. O mesmo rótulo pejorativo de "cafona" ou "comercial" que parte da crítica acadêmica tentou lhe colar acabou superado pelo reconhecimento tardio de sua arquitetura musical sofisticada. DJ's contemporâneos, produtores de hip-hop e novos nomes da MPB redescobriram suas linhas de baixo ao teclado e seus arranjos de cordas como amostras primorosas de um barroco suburbano autêntico.
Benito, enfim, democratizou a beleza. Ele provou que um instrumento nobre de cauda podia chorar as dores de uma quarta-feira de cinzas na periferia com a mesma legitimidade com que tocava sonatas em salões fechados. Sua arte permanece como um testemunho vivo de um país que canta a própria dor com elegância, brilho e uma cadência inegavelmente brasileira.
*Sâmia Aragão é formada em Educação Artística e segue o Dever de Classe.
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