Ao investigar as raízes do problema, torna-se evidente que a agressão não nasce do vazio, mas sim de uma convergência complexa de fatores individuais, relacionais e estruturais
Docente faz desabafo sobre carreira e aponta saída para superar problemas na profissão
Fala destaca condições precárias de salários e trabalho, indisciplina dos alunos, descaso dos governos e alto escalão do funcionalismo, e mostra ao final como isso pode ser resolvido
Por *Flávio N Mesquita, às 11:34
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Educação / É preciso dizer o que muitos engolem em silêncio antes que a exaustão nos cale para sempre. Ensinar deixou de ser uma vocação para se tornar um exercício diário de sobrevivência física e mental. Entrar em uma sala de aula hoje é encarar um cenário devastador: indisciplina generalizada, telas de celular capturando mentes anestesiadas e um desinteresse profundo por qualquer vestígio de conhecimento. Gastamos horas planejando aulas, corrigindo trabalhos na madrugada e levando o fardo escolar para dentro de casa, apenas para sermos recebidos com apatia, desrespeito e agressividade. O estresse é crônico, o esgotamento é diário e a sensação de impotência se tornou a única companheira ao final de cada expediente.
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Tudo isso seria brutal por si só, mas se torna uma piada de mau gosto quando olhamos para o contracheque no fim do mês. A remuneração que recebemos é uma afronta direta à nossa dignidade. Enquanto o professor precisa acumular duas ou três jornadas exaustivas para pagar as contas básicas, os políticos do alto escalão aprovam os próprios reajustes com uma rapidez indecente. O contraste fica ainda mais vergonhoso ao observar a elite do funcionalismo público, em especial juízes e desembargadores, encastelados em seus gabinetes com salários astronômicos, penduricalhos imorais e privilégios inacreditáveis. Essa casta vive em uma realidade paralela, completamente alheia ao teto mofado das nossas escolas, à falta de estrutura pedagógica e à fome de muitos dos nossos alunos.
Continua
A educação pública é tratada como um encargo descartável por governantes que só se lembram da classe em época eleitoral para produzir propaganda enganosa. Chega de discursos vazios, de promessas não cumpridas e de tapinhas nas costas. O respeito que não nos dão por civilidade terá que ser conquistado pela força da nossa mobilização. Não há mais espaço para conciliações covardes ou paralisações simbólicas de 24 horas.
A única linguagem que esse sistema aristocrático e insensível compreende é a da interrupção total. É urgente e inevitável a construção de uma super-greve nacional na educação, capaz de cruzar os braços de norte a sul do país de forma unificada, firme e por tempo indeterminado. Precisamos travar o país para exigir, sem recuos, o cumprimento e a valorização real do piso nacional do magistério, além de condições de trabalho verdadeiramente humanas. Se a educação não tem valor para quem governa e para quem julga, mostremos a eles o caos que se instala quando os professores decidem parar.
*Flávio N Mesquita é professor e seguidor do Dever de Classe
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