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Servidor público de direita é o paradoxo do próprio contracheque
Quando o servidor público ou o concurseiro vota na direita liberal, tipo Flávio Bolsonaro e afins, está, na prática, assinando embaixo de políticas que enfraquecem sua própria carreira ou impedem seu desejo de ingressar em algum órgão estatal

*Lucas N Frota, às 14:38
Política & Economia / Há algo de profundamente incoerente no servidor público – ou no concurseiro em plena maratona de estudos – que deposita seu voto em partidos de direita, tipo PL do Flávio Bolsonaro, Avante do Cury, PSD do Caiado, Novo do Zema e outros afins. Trata-se de um paradoxo tão gritante quanto alguém abrir um restaurante e torcer para que todos passem a cozinhar em casa. A direita liberal tem compromisso histórico e programático com o setor privado, com o enxugamento do Estado e com a redução de gastos públicos. E gasto público, na contabilidade fria do liberalismo, inclui salários, concursos, estabilidade e carreira de servidor. Simples assim.
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O discurso da direita é sempre o mesmo: "Estado mínimo", "eficiência", "corte de privilégios", "redução da máquina pública". Traduzindo: menos concursos, menos servidores, menos direitos, mais terceirização e mais espaço para empresas privadas ocuparem funções que hoje são públicas. A direita liberal não esconde que vê o funcionalismo como custo, não como investimento. Ainda assim, há quem estude anos para conquistar um cargo público e, na urna, escolha exatamente o projeto político que trabalha para reduzir ou precarizar esse mesmo cargo.
Direita liberal: compromisso com o mercado, não com o servidor
Partidos de direita liberal constroem sua identidade em torno da defesa do mercado, da privatização e da transferência de serviços públicos para a iniciativa privada. Quando falam em "modernizar o Estado", o roteiro é conhecido: privatizar estatais, terceirizar serviços, congelar salários, limitar concursos e flexibilizar direitos. O servidor público, nesse modelo, é visto como um obstáculo à "livre iniciativa", alguém que precisa ser contido, barateado ou substituído.
Não é por acaso que as grandes reformas que atacam estabilidade, carreira e previdência do funcionalismo costumam nascer em governos de direita. A última Reforma da Previdência, por exemplo, que piorou o acesso à aposentadoria do funcionalismo — foi feita em 2019, no governo de Jair Bolsonaro, então no PSL, hoje PL. Votar na direita liberal, sendo servidor ou concurseiro, é endossar esse projeto de desmonte e ainda aplaudir o próprio rebaixamento.
Esquerda, serviço público e defesa do funcionalismo
Em contrapartida, é a esquerda que, historicamente, se coloca contra privatizações e em defesa de um Estado forte, com serviços públicos universais e valorização do funcionalismo. A lógica é outra: saúde, educação, segurança, previdência e assistência social não são mercadorias, mas direitos. Para que esses direitos existam de forma concreta, é preciso ter servidores concursados, estáveis, bem remunerados e com condições de trabalho adequadas.
Governos de esquerda, como do Partido dos Trabalhadores (PT), apenas para citar um, costumam ampliar concursos, criar novas carreiras, fortalecer universidades e institutos federais, investir em políticas sociais que dependem diretamente de servidores. Nos seus três mandatos até aqui, junto a um de Dilma Rousseff (PT), Lula criou 18 universidades federais, 173 campi e centenas de institutos federais em todo o Brasil, o que abriu margem para a contratação via concurso de centenas e até milhares de novos funcionários.
Para a esquerda, estabilidade não é tratada como "privilégio", mas como proteção contra perseguição política e instrumento para garantir que o interesse público prevaleça sobre interesses privados. Ao defender o serviço público, a esquerda defende também quem o faz funcionar: o servidor.
O concurseiro liberal: o herói de si mesmo que luta contra o próprio futuro
Mas eis que sempre surge então a figura pitoresca do concurseiro liberal: passa anos decorando Constituição, princípios da administração pública, controle de gastos, limites à privatização, mas, na hora do voto, escolhe justamente quem quer reduzir o Estado que ele sonha integrar. Estuda com afinco o artigo 37, mas ignora solenemente o programa econômico do partido em que vota. É quase uma peça de humor involuntário.
Esse concurseiro repete slogans contra "mamata" e "aparelhamento", sem perceber que está ajudando a construir o cenário perfeito para que seu futuro cargo seja extinto, terceirizado ou precarizado. Sonha com estabilidade, mas apoia quem quer flexibilizá-la. Deseja um plano de carreira digno, mas aplaude o congelamento de salários em nome do "ajuste fiscal". Reclama da falta de concursos, mas vota em quem defende teto de gastos e cortes permanentes.
A ignorância política que sai cara no contrache
Não se trata de opinião isolada, mas de coerência mínima entre projeto de vida e projeto de país. Quem vive ou pretende viver do serviço público precisa entender que não existe neutralidade quando o assunto é modelo de Estado. Ou se defende um Estado forte, com servidores valorizados, ou se aceita o caminho da privatização, da terceirização e do sucateamento. A direita liberal escolheu há muito tempo o lado do mercado. Fingir que será diferente "dessa vez" é ingenuidade ou má-fé. A esquerda é quem defende o serviço público e os servidores.
Quando o servidor público ou o concurseiro vota na direita liberal, está, na prática, assinando embaixo de políticas que enfraquecem sua própria carreira. Depois, não adianta reclamar da falta de reajuste, do corte de vagas, da sobrecarga de trabalho ou da demonização do funcionalismo na mídia. A conta da ignorância política chega, e ela costuma vir descontada diretamente no contracheque.
*Lucas Frota é historiador e segue o Dever de Classe
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