Em vez de: "Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu", vamos de: "Desesperar jamais/Aprendemos muito nesses anos/Afinal de contas não tem cabimento/Entregar o jogo no primeiro tempo
7 de setembro: a independência que esqueceu do povo
A chamada independência do Brasil foi, na prática, um elegante acerto de contas entre as elites da época

*Vânia Correia, às 05:30
Política & Economia / O 7 de setembro é celebrado como o grande dia da “liberdade”, quando Dom Pedro I, montado em seu cavalo heroico, teria bradado o famoso “Independência ou Morte!”. Uma cena épica, cinematográfica, digna de livro didático ilustrado. Só faltou combinar com o povo, que praticamente não participou de nada disso.
A chamada independência do Brasil foi, na prática, um elegante acerto de contas entre as elites da época. Em vez de uma revolução popular, houve um rearranjo de poder para manter tudo, essencialmente, no mesmo lugar: grandes proprietários continuaram grandes, escravizados continuaram escravizados, e o povo seguiu sem voz, mas agora sob um imperador "nacional". Que mudança profunda.
Dom Pedro I não liderou uma multidão enfurecida clamando por direitos; liderou um processo negociado, cheio de interesses econômicos e políticos, em que a prioridade era garantir estabilidade para quem já mandava. A "ruptura" com Portugal veio com indenização paga à antiga metrópole e com a bênção de boa parte da elite luso-brasileira. Revolução de verdade costuma ser mais barulhenta e bem menos confortável.
Enquanto os livros contam a história do herói às margens do Ipiranga, silenciam sobre quem continuou à margem da sociedade. A maior parte da população nem sabia ao certo o que estava acontecendo, muito menos foi consultada. A independência foi proclamada de cima para baixo, cuidadosamente controlada para não ameaçar privilégios. O povo entrou na narrativa apenas como figurante tardio, quando muito.
Assim, comemorar o 7 de setembro como o dia em que "o Brasil se libertou" é, no mínimo, um exercício de criatividade histórica. O país trocou de rótulo, mas manteve a mesma estrutura social excludente. A verdadeira independência – aquela que envolve participação popular, justiça social e igualdade de direitos – ficou para depois. E esse "depois" insiste em não chegar. Mas chegará.
*Vânia Correia é Bióloga e segue o Dever de Classe
Envie também seu artigo para: pontodevista@deverdeclasse.org
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