A pretexto de resolver problemas estruturais de violência e indisciplina, governos transferem a gestão de estabelecimentos de ensino para a Polícia Militar, em uma manobra perigosa que confunde segurança pública com processo educacional.
A escola é lugar de emancipação, não de farda: os perigos da militarização do ensino
A pretexto de resolver problemas estruturais de violência e indisciplina, governos transferem a gestão de estabelecimentos de ensino para a Polícia Militar, em uma manobra perigosa que confunde segurança pública com processo educacional.
Por *Lorena C Vasconcelos, às 22:33
Apoie! Temos custos. Pix: apoio@deverdeclasse.org
Educação / Como professora da educação básica, assisto com profunda inquietação ao avanço da militarização das escolas públicas. A pretexto de resolver problemas estruturais de violência e indisciplina, governos transferem a gestão de estabelecimentos de ensino para a Polícia Militar, em uma manobra perigosa que confunde segurança pública com processo educacional. Ao transformar o ambiente escolar em uma extensão do quartel, anula-se a essência da escola democrática, que deve ser um espaço plural de construção do pensamento crítico, do acolhimento e do debate de ideias, e não da obediência cega e da padronização de comportamentos.
Siga-nos e receba atualizações!
A essência dessa crítica reside no fato de que policiais militares não possuem formação intelectual ou preparo pedagógico para gerir uma instituição de ensino. A capacitação militar é voltada para a ostensividade, o combate ao crime, o rigor hierárquico e o cumprimento de ordens — preceitos opostos à dinâmica formativa de crianças e adolescentes. Conduzir uma comunidade escolar exige compreender teorias da aprendizagem, psicologia do desenvolvimento, mediação pedagógica de conflitos e contextos socioemocionais, competências que jamais serão adquiridas em um treinamento tático ou operacional.
A gestão escolar e o exercício da docência devem ser atribuições exclusivas dos profissionais do magistério, devidamente formados em licenciaturas e pedagogia. Educar é uma ciência humana complexa que exige anos de estudo universitário, planejamento técnico e reflexão contínua sobre as metodologias de ensino. Delegar a direção e a organização do espaço escolar a agentes de segurança pública não apenas desvaloriza a carreira docente, como também afronta a legislação educacional brasileira, que estabelece a gestão democrática e a autonomia pedagógica como pilares fundamentais da educação nacional.
Os impactos dessa militarização no cotidiano escolar são devastadores para a formação cidadã dos estudantes. Sob o pretexto da "ordem", impõe-se o silenciamento de mentes em desenvolvimento, a vigilância constante e a punição de manifestações individuais de identidade. Conflitos pedagógicos e sociais, que deveriam ser tratados com diálogo, escuta qualificada e suporte socioemocional, passam a ser enquadrados como infrações disciplinares. Esse modelo baseado na rigidez inibe a curiosidade intelectual, castra a criatividade e prepara indivíduos para a submissão, e não para o exercício autônomo da cidadania.
Diante desse cenário, torna-se urgente reafirmar que a solução para os desafios da educação pública não passa pelo desvio de função das forças de segurança, mas pelo investimento real na escola civil. Precisamos de valorização salarial dos professores, infraestrutura adequada, equipes multidisciplinares e fortalecimento dos conselhos escolares. A escola é um espaço de transformação social e liberdade; entregar sua gestão às forças militares é admitir a omissão do Estado na garantia de direitos fundamentais e renunciar ao futuro democrático que deve ser construído diariamente dentro da sala de aula.
*Lorena Vasconcelos é professora, especialista em educação e seguidora do Dever de Classe
Envie também seu artigo para: pontodevista@deverdeclasse.org
Apoie! Temos custos. Pix: apoio@deverdeclasse.org
Publicidade
Leia mais em educação...
O piso nacional do magistério não pode ser reduzido a um teto salarial ou a uma verba restrita apenas ao início da tabela de vencimentos. Esse piso deve repercutir em todas as classes, níveis, referências e vantagens do plano de cargos, salários e carreiras, garantindo valorização integral ao magistério.
Sobrecarga de trabalho, pressão emocional e indisciplina dos alunos levam muitos educadores a recorrer ao uso de tranquilizantes e outros medicamentos para conseguir enfrentar a rotina diária nas escolas, evidenciando um grave problema de saúde mental e mal-estar na educação básica
Bebida alcoólica nas escolas e salas de aula: está cada vez mais perigoso ser docente no Brasil
Uso de bebidas alcoólicas por alunos nas escolas e salas de aula é só mais um dilema enfrentado no dia a dia dos profissionais da educação
Fala destaca condições precárias de salários e trabalho, indisciplina dos alunos, descaso dos governos e alto escalão do funcionalismo, e mostra ao final como isso pode ser resolvido




