O estresse docente e a saúde mental dos professores no Brasil

19/08/2026

Sobrecarga de trabalho, pressão emocional e indisciplina dos alunos levam muitos educadores a recorrer ao uso de tranquilizantes e outros medicamentos para conseguir enfrentar a rotina diária nas escolas, evidenciando um grave problema de saúde mental e mal-estar na educação básica

Por *Pedro H Freitas, às 19:30


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Educação / Era uma quinta-feira, meu primeiro dia de trabalho em uma escola da Prefeitura de Teresina, turno da tarde, Ensino Fundamental, etapa na qual eu nunca tinha atuado. 

O mês era setembro, calor escaldante, como é comum nesse período no estado do Piauí. 

Cheguei cedo e me dirigi à sala dos professores. Tinha apenas uma colega à espera de entrar logo na primeira aula. Acho que era jovem, mas com uma expressão meio cansada. 

Apresentei-me, ela me cumprimentou com um leve sorriso, tirou depois um vidrinho da bolsa, pegou água, colocou em um copo, pingou umas gotinhas e engoliu. Em seguida, perguntou: "Professor, o senhor já tomou suas gotinhas"?


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Nesse mesmo dia, no intervalo, soube pela própria colega que as gotinhas eram de Rivotril, passadas por um médico. E entendi por que ela usou e, na brincadeira, perguntou se eu também já tinha tomado as minhas. 

É que como eu mesmo pude vivenciar na ocasião, é muito difícil encarar alunos do sexto ao nono ano sem o auxílio de algum psicotrópico. A gritaria e indisciplina da turma com mais de trinta alunos beiravam o insuportável, o que era agravado ainda mais pela falta de climatização da sala e ausência de qualquer conforto. 

Não sei se mudou, pois passei apenas uma tarde nesse colégio. Falei com a direção da escola que não dava e fui embora. Não vi com bons olhos essa coisa de tomar gotinhas para encarar a indisciplina discente e o desconforto da sala de aula, ainda mais por um salário que nem atrativo era.

Continua 

O estresse docente, como se sabe, é uma epidemia silenciosa e romantizada. A sociedade exige que o professor seja um herói multitarefa — educador, psicólogo, mediador de conflitos e gestor de crises —, mas se esquece de que por trás da sala de aula existe um ser humano perfeitamente vulnerável. Naquela tarde pude perceber o quão doentio é o sistema que nos impele ao limite do esgotamento.

No entanto, apesar disso, ainda tentei me lotar em outras escolas da PMT, mas o quadro caótico era sempre o mesmo. Como não estava e nem estou disposto a "tomar umas gotinhas", pedi exoneração. Mas não recomendo a ninguém. Nem as gotinhas, nem desistir. Hoje atuo apenas no Ensino Médio, que também é barra pesada, contudo mais fácil de levar.


*Pedro H Freitas é professor e seguidor do Dever de Classe

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