Além dos embates com um Congresso hostil, outro importante desafio será o de enfrentar o ecossistema da desinformação, a "azeitada" máquina de propagação de fake news, mentiras e manipulações.
Alguns desafios para a reeleição do presidente Lula
Além dos embates com um Congresso hostil, outro importante desafio será o de enfrentar o ecossistema da desinformação, a "azeitada" máquina de propagação de fake news, mentiras e manipulações.
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Por *Homero Costa, às 09:43
Mais uma vez, como nas eleições anteriores - mesmo que muitas das pesquisas possam ser questionáveis – para as eleições presidenciais deste ano, Lula lidera em todas, tanto no Primeiro como em um eventual Segundo Turno. No entanto, mesmo com indicadores econômicos positivos, controle da inflação e menor taxa de desemprego da história, geração de empregos e crescimento da renda, ampliação de programas sociais, o governo Lula ainda enfrenta resistência de parcelas significativas da opinião pública (segundo esses mesmos institutos de pesquisas) que se deve, em grande parte, ao ecossistema da desinformação, especialmente digital.
Esse ecossistema é parte de uma rede profissional organizada para produzir e espalhar conteúdos falsos, fake news e mentiras, usando as diversas plataformas, com muitos atores envolvidos. Utilizado pela extrema direita, é irrigado por um ambiente de constantes ataques à democracia, e seus impactos na opinião pública é inegável, influenciando o comportamento e as preferências políticas de uma parcela da sociedade, vítimas da desinformação.
Esses conteúdos teve e continua tendo impacto significativos na democracia brasileira e ameaçam não apenas processos eleitorais, mas os direitos fundamentais, as liberdades individuais e a democracia
Um dos desafios é: Como enfrentá-lo? Nesse sentido é fundamental uma estratégia de comunicação eficiente do governo, o apoio e atuação de agências de checagens, portais de notícias da mídia alternativa e progressista, sites, blogs etc.,de enfrentamento constante do ecossistema da desinformação, seus articuladores e defensores, dentro e fora do Congresso Nacional.
O fato é que, ao contrário de seus opositores, sem projetos e propostas consistentes para o país, a não ser discursos, Lula tem o que apresentar e defender para sua continuidade, entre outros aspectos, com a inflação controlada, êxito de programas sociais, que resultou na saída do país do mapa da fome, a menor taxa de desemprego da história, o aumento real do salário mínimo (que não houve no governo anterior, nem tampouco reajustes salariais para o funcionalismo público), manutenção e ampliação de programas importantes como Pé-de-Meia - programa criado para combater a evasão escolar no ensino médio (na versão atual atende alunos inscritos no Cadastro Único, de baixa renda, e o governo estuda expandir o benefício para todos os estudantes da rede pública - Farmácia Popular, Mais Médicos (aumento do número de médicos e municípios), o Agora tem Especialista - que tem como principal objetivo reduzir o tempo de espera por atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) e que segundo o Ministério da Saúde, entre as ações desenvolvidas estão "a ampliação de mutirões, o uso de unidades móveis de saúde (carretas), a aquisição de transporte sanitário e o fortalecimento da Telessaúde. Essas medidas contribuem para garantir mais agilidade, eficiência e equidade no acesso à saúde especializada".
Enfim, um conjunto de ações que qualificam o presidente Lula para seu quarto mandato. (afora, e não menos importante, a reinserção do país no cenário internacional).
Mas, além de ter a capacidade de enfrentar o ecossistema da desinformação é necessário que o governo tenha uma base de apoio consistente no Congresso Nacional, que possa garantir a governabilidade e para isso, é de fundamental importância, a ampliação das bancadas dos partidos da base aliada nas eleições de outubro. Se não conseguir, pode ficar refém e enfrentar problemas, como tem enfrentado com o Congresso, expresso, por exemplo, na derrubada de vetos do presidente. Já foram dezenas até o final de 2025 , entre eles, a indenização vitalícia às vítimas do Zika vírus, o da dispensa de revisão periódica para aposentados por invalidez e parte dos vetos presidenciais ao projeto que regulamentou a reforma tributária e tratam dos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e dos Fundos de Investimentos nas Cadeias Produtivas do Agronegócio.
Continua
Com os vetos presidenciais rejeitados, os trechos passam a valer como lei em definitivo.
Para derrubar um veto presidencial, os parlamentares precisam formar maioria absoluta separadamente: 257 votos de deputados e 41 votos de senadores. Se a rejeição ao veto for aprovada em uma das Casas (Câmara dos Deputados e Senado), mas não obtiver votos suficientes na outra, o veto é mantido. Se os vetos forem derrubados pelo Congresso, novo texto é enviado para promulgação pelo presidente. Na prática, o presidente não tem escolha: precisa promulgar a matéria sem os vetos derrubados em 48 horas. Se não fizer isso, a tarefa passa para o presidente do Senado.
Um dos projetos vetados integralmente pelo presidente Lula no dia 8 de janeiro de 2026 - em cerimônia para marcar os três anos dos atos de vandalismo e tentativa de golpe em Brasília - foi o PL da Dosimetria, aprovado no Senado no dia 17 de dezembro de 2025 (48 votos a favor e 25 contrários). Este projeto, entre outros aspectos, beneficia pessoas condenadas por mais de um crime cometido no mesmo contexto, como os crimes relacionados aos planos de tentativas de golpe de Estado. Na impossibilidade de uma anistia ampla, geral e irrestrita que defendem, por ser claramente inconstitucional, tentam diminuir a pena dos condenados a vários crimes, incluindo o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Com o retorno dos trabalhos do legislativo, o veto do presidente será analisado e votado no Congresso Nacional e muito provavelmente, será mais uma derrota do governo, com a derrubada do veto. Mas, nesse caso, ao contrário de muitos vetos que foram derrubados pelo Congresso, este certamente o Supremo Tribunal Federal (STF) será consultado sobre a constitucionalidade e deverá decidir pela manutenção do veto presidencial, não alterando as penas dos condenados, como defendida no PL da dosimetria.
Os embates com o Congresso Nacional, de maioria oposicionista, evidencia a importância de se constituir uma base de apoio consistente, não circunstancial, em troca de apoio, chantagens e liberação de verbas. O governo não pode nem deve ficar refém do Congresso, como ocorreu no governo anterior. Ampliar o número de deputados e senadores (e também de governadores) que integrarão sua base de apoio é fundamental para garantir a governabilidade. Sem alternativas viáveis para o Presidencialismo de Coalizão, não resta outra opção a não ser lidar com isso, construindo uma base de apoio mais programática e ideológica.
Além dos embates com um Congresso hostil, outro importante desafio será o de enfrentar o ecossistema da desinformação, a "azeitada" máquina de propagação de fake news, mentiras e manipulações. E como propostas legais nesse sentido não avançam no Congresso (O PL das fake news foi aprovada em 2020 no Senado e ainda está para ser votada na Câmara, sem qualquer perspectiva de que seja votada este ano), resta, articular outras frentes de atuação nas redes sociais, dominada em grande parte pela extrema direita. Um combate muito difícil, mas necessário.
Um exemplo recente mostra como eles atuam, como as mentiras, com milhões de visualizações, sobre taxação do pix (impulsionadas pelos algoritmos nas redes bolsonaristas, em grupos no Instagram, Tik Tok, X e WhatsApp, etc) e cujos desmentidos não tem o mesmo alcance e repercussão.
E não apenas mentiras e fake news, como manipulação de falas, como ocorreu recentemente quando, no dia 16 de janeiro deste ano, em uma solenidade na qual o presidente Lula fez críticas as elites brasileiras que, como ele sabe, historicamente, são contra os direitos trabalhistas, assim como condenou a criação tardia das universidades no país, afirmando que o Brasil foi descoberto em 1500, a Republica Dominicana foi descoberta em 1498 e 32 anos depois foi criada uma universidade e no Brasil demorou 420 anos para fazer isso (Como se sabe, a primeira universidade criada foi chamada de Universidade do Rio de Janeiro, fundada em 1920. Depois mudou o nome para a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. A Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, só foi criada 14 anos depois, em 1934).
No discurso, Lula ao se referir à criação tardia das universidades no Brasil, indagou "por que será que acontecia isso? É porque pobre não precisa estudar, vocês nasceram só para trabalhar Será que a gente não percebe isso?" E completou, se referindo as elites, que para eles "estudar é filho de rico, que pode estudar na França, Inglaterra , nos Estados Unidos, na Espanha, em qualquer lugar, mas aqui não, temos de ser contador de cana, fazedor de prédio" etc. e foi justamente esta parte, de que pobre não nasceu para estudar, mas para trabalhar, que foi editada por seguidores da extrema direita, tirada do contexto, como se Lula defendesse isso e não fizesse justamente o contrário, ou seja, tiram a frase do contexto para sugerir que o presidente afirmou que a população mais pobre não deve estudar.
Na realidade, o discurso foi em defesa do pobre, ele defendeu que todos devem ter oportunidade de estudar, ter acesso à educação, cursar universidades, etc., e citou inclusive o aumento da presença de pessoas negras e de moradores da periferia nas universidades do país, que, como ele disse, se deveu em grande parte, ao Prouni (Programa Universidade para Todos) e ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), criados e ampliados em sua gestão.
O problema é que o conteúdo manipulado, distorcido, teve milhões de visualizações no X, TikTok, Instagram, WhatsApp e Facebook. E quantos tiveram acesso ao conteúdo integral para perceber a manipulação?
Há outros desafios importantes como a questão dos juros altos (o que explica de fato a manutenção de uma taxa tão alta? A taxa básica de juros, a selic, está em 15%, mantida nas últimas quatro reuniões. Neste ano serão oito reuniões, a primeira será no final de janeiro e há a expectativa de que o Banco Central inicie o ciclo de cortes nos juros) e o problema da violência urbana, que deve ser enfrentado.
No entanto, no caso da segurança pública, é preciso que estas propostas sejam aprovadas pelo Congresso Nacional e quando foram encaminhadas para discussão ,votação e aprovação, enfrentou e continua enfrentando enormes problemas para aprovar alguns projetos (como o PL das fake news, da Segurança Pública etc.) exatamente porque o governo não tem maioria e não interessa ser aprovada pela oposição no congresso.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre Segurança Pública, por exemplo. foi enviada pelo governo em abril de 2025, com o objetivo de reestruturar o modelo de segurança pública. Entre as propostas, a inserção do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) na Constituição; ampliação das competências da União para o estabelecimento de diretrizes nacionais; ampliação das atribuições da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal e reconhecimento das guardas municipais como forças integrantes do sistema nacional.
E também incluia na Constituição prerrogativas para o combate às facções, milícias e organizações criminosas restringindo ou impedindoe a progressão de penas e aos benefícios que reduzem o tempo de prisão para criminosos violentos.
Embora tenha sido aprovada na Comissão de Constituição e Justiça, ainda não foi aprovada pelo plenário da Câmara dos Deputados e quando e se for, ainda deverá ser discutida e aprovada no Senado.
Uma das preocupações do governo serão as eleições legislativas (não apenas, também de governadores). Na Câmara dos Deputados a oposição e o Centrão em particular, hoje é maioria. Vai manter ou ampliar sua representação, usando, entre outros mecanismos, as emendas impositivas, distribuindo benesses às suas bases eleitorais? E no Senado?Na votação do PL da dosimetria, foram 48 votos a favor e 25 votos contrários. Isso significa que com a eleição de mais 16 senadores, a extrema direita terá maioria também no Senado? Se formar maioria, como se pretende, coloca a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e é nisso que a oposição aposta. Conseguirá?
A questão central é: Quais as estratégias de Lula para conquistar o quarto mandato? No Congresso, é importante aprovar o fim da escala 6x1, projeto com ampla aceitação popular - e que a oposição, com a extrema direita à frente, é contra. Também estão na pauta a regulamentação dos trabalhadores por aplicativo, a gratuidade para o transporte público, a continuidade de programas sociais importantes, assim como, aspecto relevante, o governo espera colher o resultado de medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco salários mínimos; o Gás do Povo; a ampliação do Minha Casa (está previsto para este ano mais de 3 milhões de unidades habitacionais) ara várias faixas de renda, Minha Vida, o aumento no acesso ao crédito imobiliário, ampliação de programa como Pé-de-Meia, criado para combater a evasão escolar no ensino médio e expandir benefícios para todos os estudantes da rede pública.
Além disso, como mostrou com dados o colunista do UOL Julio Wiziack, em artigo publicado no dia 20 de janeiro de 2026, "Sob Lula a Petrobras 'ressuscita' refinarias e bate recordes" e diz "colocadas à venda no governo Bolsonaro , as refinarias da petroleira passaram a produzir com índice médio de 92% de aproveitamento sob Lula 92% (...) entre 2023 e 2025, a estatal elevou em 3% a produção média de derivados e ampliou em mais de 20% a capacidade de produção de Diesel-S10. Também houve a ampliação da oferta de gasolina e de gás natural".
No momento com a vantagem não apenas de apresentar bons resultados, como uma esquerda unida em sua candidatura, ao contrário da direita, dividida e sem um candidato, até o momento, competitivo na disputada eleitoral, as perspectivas de reeleição são reais. Mas, como em todo eleição, há sempre uma imprevisibilidade (como ocorreu com o atentado a Bolsonaro em setembro de 2018, que mudou completamente o cenário eleitoral e contribuiu para sua eleição), ou seja, variáveis sem controle que podem alterar a disputa eleitoral.
Se o governo tem o que defender e até a possibilidade de ampliar seus programas, o que a oposição tem a oferecer e a defender? O legado do governo anterior? Que propostas têm para a educação, saúde (vão manter o programa de vacinação?), segurança pública, cultura, ciência e tecnologia? O que fazer em relação ao desmatamento na Amazônia? (do início de 2023 ao final de 2025 houve uma redução de 50% do desmatamento, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, com a intensificação de ações de fiscalização e monitoramento), sobre as terras indígenas, agricultura familiar(no governo Lula, com o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, conduzida pelo BNDES, houve um aumento na produção de alimentos pelos pequenos agricultores agrícolas e sua continuidade com o Plano Safra da Agricultura Familiar 2025-2026, com recorde histórico de investimentos).
O fato é que o presidente Lula inicia 2026 em cenário favorável, com a oposição fragmentada e brigando entre si. E deve manter e ampliar sua agenda social, suas políticas públicas, informando de forma eficaz à população, o que fez e deve fazer. Enfim, estratégia de defesa dos resultados do governo e comparação com o governo anterior devem pautar relevantes de sua estratégia e assim criar as condições para um novo mandato.
*Homero de Oliveira Costa é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor, entre outros, dos livros A insurreição comunista de 1935 (Ensaio/SP e Editora da UFRN), Dilemas da representação política no Brasil (UFPB), Democracia e representação política no Brasil (Sulinas, RS), Crise dos partidos políticos (Appris,PR), e o Triunfo da pequena política (CRV,PR).
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