"Facada" | Adélio Bispo e os heterônimos do poeta Fernando Pessoa! Acesse...

16/06/2019 10:15

Falta apresentar o Adélio por ele mesmo

Cultura | Por *Landim Neto. O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) inovou na literatura e poesia mundiais. Enquanto renomados autores criaram personagens, Pessoa criou personalidades — os heterônimos — na verdade, outros poetas. E todos com estilo e biografia próprios. 

Se vivo fosse, Fernando Pessoa talvez conseguisse explicar quem de fato é Adélio Bispo, o homem que supostamente esfaqueou Jair Bolsonaro. Mas antes que busquemos entender Adélio a partir da obra do poeta português, é importante conhecer e/ou relembrar alguns dados das criações de Pessoa. Continua, após o anúncio.

Dentre as personalidades paridas por Fernando Pessoa, três são muito conhecidas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. E há também o poeta modernista Fernando Pessoa por ele mesmo, uma quarta personalidade.

Caeiro (1989-1915) viveu no campo e era de estilo e linguagem simples. Só estudou até o primário. Reis estudou medicina, é antimodernista e possui linguagem clássica e vocabulário erudito. Nasceu em 1887 e data de sua morte é desconhecida. Por fim, Campos é engenheiro e modernista. Nasceu em 1890. Data do seu falecimento também não se sabe. Fernando Pessoa por ele mesmo dispensa maiores esclarecimentos. É o próprio.

A partir de tais personalidades tão díspares, é possível estabelecer um paralelo entre as diferentes pessoas criadas pelo poeta português e o "esfaqueador" Adélio. A diferença é que nos heterônimos nós temos personalidades em pessoas distintas. Em Adélio, nós temos personalidades diferentes em uma pessoa só. Continua, após o anúncio.

Um primeiro Adélio é apresentado por setores da mídia como um homem educado e bem sucedido financeiramente, a ponto de pagar R$ 600, 00 por uma hora num clube de tiro frequentado por pessoas de classe média. Um outro, humilde, é desempregado, embora tenha dinheiro para pagar aluguel de pensão. Um terceiro, por fim, é um rude, fanático e louco que pega uma faca e decide ir, sozinho, matar um candidato a presidente da república rodeado de seguranças e famoso por pregar a morte de opositores.

Fossem esses diferentes "Adélios" criação de Fernando Pessoa, tudo bem. O poeta demonstrou que era muito inventivo mesmo. O problema é que, no mundo poético do Pessoa, personalidades criadas não precisam de maiores explicações. Basta que o leitor se entretenha com o que cada uma delas produz. No mundo verdadeiro dos "Adélios", no entanto, talvez as autoridades e a grande mídia estejam ocultando uma quarta pessoa: o Adélio real. O Adélio por ele mesmo.

*Landim Neto é editor do Dever de Classe

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